Construir uma família. Casar na igreja como manda a tradição italiana e ser pai, sempre fez parte do desenho que tracei pra minha vida. Acreditava que seria uma boa oportunidade para compartilhar o aprendizado, passando à frente o que fazer e o que não fazer, pela experiência que tive com os meus pais e na vida de forma geral.

Sonhava ser pai, mas aí vem a perguntinha: Menino ou menina? Qual a sua preferência?
Tanto faz! E como diz um grande amigo – e solteirão convicto – se Deus não te der filhos o Diabo lhe dará sobrinhos!
OK, mas com toda sinceridade do mundo, sempre dei preferência por meninas e…fui atendido! Fui abençoado por 2! Do jeitão que eu queria. Aí foi a vez dos amigos de infância se manifestarem: Aeee! De pedra à vidraça hein! Ouvir isso é muito desconfortável, dolorido. Pensar que algum dia um Bob Nerson qualquer vai te chamar de sogrão??? Vai querer dar uns amassos nas suas princesinhas? Fazer o que você fez??? Pusta que lo pareo! Doía no saco só de imaginar!
Mas, por que minha escolha por meninas? A primeira palavra que me vinha a cabeça era “tranquilidade” e a segunda “sossego”.
Em um cenário com meninos, me imaginava chegando em casa cansadão e sendo atacado por 2 seres vestidos de Power Ranger, Homem Aranha, Capitão América ou qualquer maluco do gênero, me dando uma voadora, porrada no estômago, no saco, dando com um escudo na minha têmpora, um sabre de luz de Jedi no meio do crânio ou vestido com a camisa do Barcelona
disparando uma bica com uma bola de couro bem no meio da minha fuça, me colocando a nocaute sobre uma mesa de vidro! Imaginando este tipo de tortura, ser pai do gênero masculino, já me tirava o sono.

Já a opção por meninas veio pela observação. Elas “geralmente” são mais calminhas. Bom, fui atendido pelo papai do céu. Minhas filhas quando pequenas disputavam meu colo, me enchiam de beijos e abraços. Nos passeios a pé, carregava uma no colo e a outra nos ombros. Era uma pusta musculação, mas valia a pena.
Mas, meus tempos de glória duraram até o momento em que elas não precisavam mais me dar as mãos para caminhar. O sonh
o machista de estar rodeado por 3 mulheres e me transformar em um rei foi pura ilusão. Coisa de filme. O tempo passou e descobri que de rei não tinha nada. Estava mais para o bobo da corte desta mulherada.
Então meu caro leitor entenda uma coisa: as meninas são grudadas ao pai até a pré-adolescência e depois você as perde para genitora. Se der sorte e os hormônios delas colaborarem, você resgatará parte de alguma coisa – que sobrar dos namoradinhos – somente no início da fase adulta.
No caso dos moleques, a lógica é a mesma: eles são apegados a mamis e na pré-adolescência descobrem que tem algo pendurado igual ao pai. Mais velhos, trocam porradas verbais com seus semelhantes e dificultam a comunicação com os peludos residentes sob o mesmo teto e voltam para o lado da mamãe que os protegem, claroooo! Mãe é mãe! A minha é assim até hoje. Os mais rebeldes ameaçam ir embora de casa por diversas vezes, mas a roupinha lavada, a comidinha quentinha e a babação de ovo os trazem de volta para a realidade.
Antes de minhas filhas começarem a namorar, o medo que eu tinha era “que tipo de figura essas doidas irão trazer pra minha vida”? Tinha pânico ao imaginar os apelidos e o visual destes estranhos intrusos. Dark? Headbanger? Emo? Já pensou ela chegar e te apresentar o Fimose? Suvaco, Chulé, MC qualquer coisa, foram apelidos que me assombraram! Mas a hora chegou e o senhor dos céus me trouxe 2 cidadãos de times de futebol rivais ao meu, porém com nomes normais e visual aceitável. Pelo menos na minha frente os caras parecem estar dentro de um padrão aceitável pelo macho alfa, que cá entre nós, é minha esposa.

Com 3 TPMs mensais, caminho sobre uma linha tênue – mais parecido com um campo minado – e procuro ficar invisível neste período para preservar minha existência.
Dia de festa é algo à ser estudado pelos psicanalistas, por que eu já desisti. Entre a escolha do figurino, banho, secador de cabelo e babyliss, elas precisam de 6 horas para finalizar todas essas etapas, derrubam a chave de energia e ao final saem insatisfeitas! Isso tudo após minha declaração honestíssima em dizer que todas estão lindas! E estão mesmo! Mas a opinião masculina é totalmente ignorada. Pelo menos a minha.
Sobrevivente desta anarquia insana, deixo para me arrumar nos 30 minutos finais do horário programado para debandar. Mesmo assim, fico arrumado, olhando para a TV e ouvindo o desespero no andar de cima da residência. Quando todas estão prontas escuto do trio: Pra homem é fácil ! Não precisa fazer nada! Não subiu nem pra ajudar a gente!

Conseguem imaginar a expressão do meu rosto? É como se eu estivesse na Alemanha e viesse um esquimó pedir informação sobre qual ônibus pegar para a Islândia!
Nada com nada.
Mas, a vida de pai é assim mesmo.
Ah! Faltou um detalhe: Na porta da sala, quando o cenário indica que finalmente sairemos para o evento em questão, elas em coro dizem pra mim: Você vai vestido assim?
