Uma das situações mais desconfortáveis é ver alguém se aproximando de você, gritando pelo seu nome – ou pior, pelo apelido de infância -todo empolgadão(ona) e ao perceber, você sorri fingindo que se lembra do ser que ali se apresenta e naqueles segundos que antecedem a colisão, seu cérebro aciona a tecla “search” na esperança do processador localizar um fragmento de memória, um flash que seja, mas o triste é perceber que na mesma velocidade, a informação é inviabilizada no interior do HD que desiste ao sentir tratar-se de alguém que mal rascunhou uma linha de importância no seu livro de história e – por alguma razão infeliz – lembrou de você 40 anos depois do último papo.
Nunca fui bom com nomes e muito menos com fisionomias, principalmente depois de um tempo de desmanche, porque cá entre nós, encontrar alguém após algumas décadas é surpreendentemente chocante! Geralmente quando as pessoas percebem que você não as reconhece, dizem: “Pois é, eu engordei um pouquinho!” – como se 40 kg não fosse absolutamente nada. Ou está com tantas rugas no rosto que um copo de água despejado sobre a cabeça demoraria uma semana para chegar aos pés. Nem todo colágeno do mundo resolveria a questão. É claro que envelheci e o espelho não me deixa esquecer e nem tenta me iludir com photoshop, mas existem pessoas que realmente possuem o dom da transformação e o estrago é impressionante.
Mas, o que fazer? Nos primeiros minutos, o BOM SENSO faz com que você busque informações periféricas na tentativa de encontrar alguma peça que faça sentido neste quebra-cabeças, depois fica balançando a cabeça sorrindo com cara de conteúdo como se lembrasse de todos os lindos minutos que viveram juntos. A conversa piora quando o “incógnita” pergunta como está seu pai, sua mãe, seus irmãos e fala o nome de todos eles!!! Bate o desespero e você não consegue mais esconder a expressão de melão. Talvez o melhor seria dizer a verdade e pedir desculpas por não se lembrar, mas e se ela detalhar alguma coisa que aconteceu e mesmo assim você não se lembrar!!! O que fazer? Dizer que está sofrendo de Alzheimer?

Chutar algo do tipo: “como está sua irmã?” pode receber como resposta: “Ela é coronel da reserva”, portanto sugiro simular que está com a boca anestesiada e entre um gemido e um murmuro, com a dificuldade de comunicação limitada, faça com que a pessoa retorne para o túnel do tempo – de onde nunca deveria ter saído – e acabe logo com o cheiro de mofo desta conversa.

Grandes chances dela te enviar um convite de amizade pelo Facebook, e se mesmo assim, após analisar o histórico das “fotchinhas” e ainda não se lembrar – o que é bem provável – assuma que o alemão (Alz) te pegou e seja o que Deus quiser.
O fato é que depois de um tempo nossa mente simplesmente deleta tudo o que não nos é importante para liberar espaço na memória somente para aquilo que realmente é. O cérebro é racional na limpeza e abre espaço para que o emocional – associado ao coração -selecione quem passa e quem fica.
Faltam médicos, remédios, equipamentos quebrados ou há anos encaixotados em processo de deterioração esperando a liberação de algum entrave burocrático, ou pior, da existência do local adequado para instalação deste equipamento que fôra comprado muuuuiittooo antes do lugar existir!


O absurdo é que este festival de horrores não tem hora pra acabar. Minha mãe (74) e uma senhora (91) que dividia o quarto com ela, quase enfartaram com um médico (+60) que chegou gritando no quarto ao lado! Chegou como se estivesse no antigo pregão da bolsa de valores! Saltei de uma confortável poltrona – destas usadas por faquires – disponibilizadas para acompanhantes, e saí para o corredor querendo briga! Não imaginei que o imbecil era um cardiologista visitando sua paciente às 4 da matina. Me contive no olhar de indignação – similar a de um tiranossauro rex analisando sua presa- e expressei meu sentimento com uma única frase apontando para aquele quadrinho típico de hospitais onde vemos uma enfermeira usando aquele chapéu de padeiro e o indicador entre o lábio: “Isso serve para o senhor também! (Até aqui, de fato aconteceu, porém enquanto não parava minha taquicardia e com receio de precisar dos serviços deste infeliz, fiquei pensando na continuidade da frase que deveria ter colocado para fora – segue) Acredito que deveria passar por consulta em 2 colegas seus, porém com especialidades diferentes. Um otorrino, pois o senhor está surdo e um psiquiatra, pois também está louco. E por gentileza…vá para o inferno! “



Este cara deveria receber um nobel de literatura por este espetáculo literário e os fãs um troféu cheio de esterco! De forma educada chamo isso de emburrecimento musical, mas qual o nome que damos àqueles que curtem isso? O Brasil está se transformando em uma Savana povoada de Hienas!