O primeiro tratamento de canal a gente nunca esquece

A cadeira de um dentista ao longe parece confortável. Cores claras, reclinável, abajourzinho sobre a cabeça, mas…quando o tema em questão é dente, este estofado se transforma rapidamente em uma câmara de tortura e a dentista em sua carrasca.

Anestesia dada, 3 picadas transversais diga-se de passagem, ela solta a seguinte frase delicada:

  • Vou colocar uma pequena manta de borracha pra isolar o dente e deixa-lo mais confortável.

Na sequencia enfiou algo do mesmo material usado em bexigas de festinha na minha boca que ainda cobria parte do meu nariz. Naquele momento achei que poderia ser um sequestro. Anestesiado e com decoração de buffet infantil atolada na minha boca, coisa boa não era.

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Eu não conseguia olhar nos olhos da minha algoz que trabalhava ferozmente no interior da catacumba. De dentista a arqueóloga foi um pulo. Queria entender porque os dentistas fazem perguntas à você quando se é impossível falar com alguém debruçado sobre sua arcada dentária escancarada e ainda com uma bexiga, ferramentas e sugador de saliva.

Aliás este sugador te remete a imagem de um peixe fisgado e que, anestesiado temos a sensação de estar babando sem parar, porém enviei mensagens telepáticas a doutora cirurgiã dentista acreditando que fizesse a leitura de sinais referentes a dor que meu corpo expressava: pezinho se contorcendo, pressão dos braços sobre a barriga e por final, a lagriminha escorrendo pelo olho direito, mas nada deteu aquela impiedosa mulher focada no objetivo de consertar o estrago no meu dente do siso.

dentista 4Isso mesmo. Foi no siso. Lá atrás. O último da fila. O mais jovem do time, mas atualmente na meia idade também.

De repente ela saca de um envelope a minha panorâmica e examina o raio X. Não consegui evitar o humor negro e pensei:

“Pronto, ela detonou o dente errado!”

Por Deus, foi só pra conferir e seguiu em frente.

 

Quando achava que a sessão de tortura estava no final, ela enfiou na minha boca algo semelhante a um esmeril, depois massa, novamente o esmeril. Me senti em uma oficina de funilaria e pintura. Só faltava o polimento. Após ela dizer que havia terminado, ainda ficou mais uns 10 minutos na cavocagem.

Quando ela mandou a VAP, disse:

  • Faz o bochechinho e cospe. Acabou.

Voltei a respirar aliviado. Havia sobrevivido. Saí da sala ainda anestesiado. Minha boca estava tão torta que ao me olhar no espelho vi o Silvester Stalone.

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Os carrascos da idade média usavam capuz antes de executar o condenado a morte, mas no caso dos dentistas, não precisam, porque apagamos a imagem deles logo após pisarmos fora da sala de tortura que carinhosamente eles chamam de consultório .