Muita gente não sabe, mas iniciei meus trabalhos no universo da comunicação algumas décadas atrás trabalhando como ator.
Apesar desta carreira ter me conduzido até onde estou hoje, não é ela que atualmente paga minhas contas.

Como um polvo faminto, abri meus tentáculos e agarrei parceiros com experiências distintas em diversas áreas da comunicação e juntos criamos a OCTOWORKS, que vai muito bem obrigado. Sabemos que para se ganhar dinheiro como ator, ou em qualquer setor ligado a cultura e arte, é preciso fazer sucesso com o público e, para isso, você necessariamente precisa estar na mídia para ganhar visibilidade e consequentemente cair nas graças da galera.
Como sempre fui mais operário do que artista, onde me sentia esquisitão nos exercícios propostos nas aulas de teatro, como imaginar ser um feto na barriga da mãe ou uma árvore e outros bichos estranhos que tentaram embutir nesta carcaça que vos escreve, pensar em ter um nome artístico era insano pra mim, além do fato que iria chatear a família. Achava uma bobagem, pois sinto que primeiro o público se apaixona pelo personagem, depois pelo ator e só aí que resolve pesquisar o nome do cabra, portanto considerei que a mistura entre um nome russo – Wladimir – e um sobrenome italiano – Candini – eram mais do que suficientes pra fazer estrago na mente das pessoas. O mercado me abraçou pelo sobrenome e lá fui eu, Candini is my name.
Dinheiro de verdade ganhei fazendo publicidade e trabalhando no mercado corporativo, em eventos, vídeos institucionais, treinamentos e lançamento de produtos, mas baseado no resultado do meu trabalho no setor de entretenimento, deveria ter adotado o pseudônimo de “Modesto”.
Wladimir Modesto, Modesto Candini, não pela sonoridade ou pela numerologia, mas pelas participações que fiz durante anos alimentadas pela esperança de me ofertarem algo um pouquinho melhor em que eu pudesse interpretar um personagem que não fosse eu mesmo com figurinos diferentes, algo recorrente nos folhetins da Tv brasileira.
Passei pelo teatro, fiz novelas, séries de Tv, longa metragem e recentemente estreei uma série na Netflix.
O que elas tem em comum? “Modestas” participações. Daí a inspiração para o nome artístico. Uma participação “modesta”, mas quando você sente que o personagem tem representatividade e o texto lhe é convidativo para provocar algumas nuances na fala que caracterizem seu personagem, acaba nos levando a aceitar o “papel”, mas no meu caso a maioria tiveram um resultado final frustrante e vou descrever porque:
Fiz “Laços de Família” na Globo, uma participação “modesta” com o personagem Martins, mas ouvi nos bastidores que o meu nome fora ventilado para fazer a serie “Presença de Anita” logo após o término da novela. Me descreveram o personagem e parecia ser uma oportunidade interessante. Um personagem do começo ao fim. Ventilou tanto que a proposta se perdeu no espaço.
Após esta novela fui convidado pelo SBT para fazer a “Pícara Sonhadora”. Jesus é pai! Com este nome fui para reunião com 2 pés atrás, o terço na mão e minha agente a tiracolo. Sim, tive até agente. Ao conversar com o diretor de elenco sobre meu personagem, me pareceu interessante até falar sobre a grana. Ruim demais. Levantei e fui embora.
Anos depois recebi outro convite da Globo para fazer uma única cena na novela 7 PECADOS onde contracenaria com a fabulosa Elisabeth Savala. Humor puro e rasgado em uma cena de aproximadamente 3 minutos. Acreditem que 3 minutos é um bom tempo em cena. O texto de Walcyr Carrasco era muito bom e a cena divertidíssima.
Trabalhando com 2 câmeras fizemos a cena de primeira. Me lembro orgulhoso de Savala levantar-se à minha frente e me aplaudir de pé e, logo na sequencia, o diretor Jorge Fernando se aproximou e disse: Parabéns! Wladimir Candini, certo? Não vou me esquecer de você!
Até que para mim o resultado ficou bem bom. A cena ficou bem divertida, mas o Jorginho esqueceu.
Um diretor que não esqueceu de mim e parece que gostou do meu trabalho em cena foi o Zé Alvarenga. Me chamou para fazer um psicanalista na série de humor “Minha nada Mole Vida” e pouco tempo depois a serie policial – FORÇA TAREFA onde interpretei o “delegado safado Mauro Cesar”, morto com um tiro na cabeça no final da primeira temporada. De mim ele não esqueceu, mas ao longo da narrativa teve um pifão, porque logo depois, na segunda temporada, reencarnei como o Deputado Maurício. Vai entender.
A Globo só me ligava pra renovar o registro de atores aqui em SP (onde geralmente você contracena com um tripé cujo contraponto tem um desenho SMILE desenhado em uma sulfite presa com fita crepe na altura do seu rosto) ou para fazer participações. Percebi que neste namoro a emissora só queria passear comigo de mãos dadas pelo parque, porque me levar para o motel que é bom, não ia rolar.
Relacionamento é tudo e como não tenho um sobrenome de apoio que se faça presente nos bastidores, iniciei uma sequencia de “nãos” até que me esquecessem. Pelo menos por enquanto.
Pensei: Vou fazer cinema.

Surgiu o primeiro convite: interpretar André Lara Resende no longa “Real, o Plano por trás da história”. O personagem era “modesto” mas forte no contexto histórico. Mas cá entre nós, para um ator isso não representa nada. A gente precisa é aparecer na tela para ser lembrado, mas refleti que estaria contracenando com atores consagrados e sob a batuta do excelente diretor Rodrigo Bittencourt. Mas novamente a decepção foi ver na tela que em minha principal cena o editor/montador, me deixou na maior parte do tempo em OFF (para quem não sabe OFF quer dizer só a voz).
Depois de um tempo recebi um convite vindo da querida Paula Chiaverini – responsável pelo casting do filme REAL – para interpretar um personagem forte (segundo ela) em uma nova serie da Globo. Pela primeira vez após 30 anos trabalhando como ator ouvi a palavra protagonista, palavra que não faz parte do meu dicionário. Porém não rolou. Estava em andamento um processo em que havia sido convidado para dirigir um programa de TV com foco em educação em negociação para ir ao ar aos domingos no horário nobre pela rede Bandeirantes e, mesmo estando por trás das Câmeras, meu nome foi descartado pela política interna da Globo. Compreensível. O programa por alguma razão desconhecida desintegrou no meio do caminho e fiquei sem nenhum dos dois.
Foi quando recebi o convite para fazer um self tape (teste por celular) e enviar para a Boutique Filmes para uma nova serie da Netflix chamada “Onisciente” onde eu faria o advogado Henrique, um dos poderosos donos da empresa que leva o mesmo nome da serie. Pensei: Opa! Agora vai! Fui aprovado, mas quando recebi os roteiros percebi que novamente minha participação seria “modesta”. Não foi.

A serie estreou recentemente e resolvi me auto-prestigiar assistindo ao primeiro capítulo onde se concentra minha cena mais longa, mas ao assistir me frustrei novamente ao ver que 70% da minha fala ficou em OFF bem ao fundo (BG), quase um zzzzzzzzzzz sobreposta pelos pensamentos da personagem principal. É claro que dentro da narrativa faz total sentido, mas para quem gostaria de ver o próprio personagem em cena, foi brochante.
Resolvido: não quero mais brincar disso. Ou me oferecem um personagem de verdade que fará parte da narrativa ou vou pro Big Brother me aliar ao PIONG e atear fogo no cenário (rs). Para selar minha decisão, dia desses recebi o convite para interpretar o governador Geraldo Alckmim. Será que é agora? Uma serie política? Não, a história do Silvio Santos. Respirei fundo e busquei na memória a relação de ambos e lembrei da intervenção do governador no sequestro da filha do todo poderoso do SBT, ou seja, mais uma “modesta” participação. Agradeci e mandei educadamente um NÃO em caixa alta.
Com este histórico de “modestas” participações cheguei a conclusão que mesmo recebendo elogios pelo meu trabalho como ator, onde cheguei a ser aplaudido em cena aberta por diversas vezes no teatro, com rasgação de seda de alguns diretores consagrados, agências de atores me colocando no pedestal, produtores de elenco me tratando como estrela, aquelas escondidas atrás das constelações, percebi que o pessoal da edição gosta mais da minha voz do que da minha presença na tela, a propósito, ganhei muito mais dinheiro como locutor do que como ator. Menos mal. (Rs)
Me senti um peido no escuro, onde você ouve mas não sabe quem foi o autor da obra.

















