A paixão da minha geração era a bola.

Pré-Mirim, Mirim, Infantil, Infanto, Juvenil, Principal, essas eram as divisões das bases que escalei ao longo dos anos na Várzea e um pouco na base de clubes grandes. Meu futebol era honesto. Um arroz com feijão bem jogado, mas nada que pudesse me levar ao profissional. Meu negócio era o terrão!
Era início dos anos 70. Debaixo de sol ou tempestade, às sete horas das manhãs de domingo, estava eu portando uma sacolinha de pano recheada por um par de chuteiras, duas faixas e um par de caneleiras, acessório recém lançado na época, aguardando abrir o portão de ferro pintado de branco com o distintivo do 7 de Setembro da Água Rasa, primeiro clube que tive orgulho de vestir a camisa com furinhos, mas não para ventilar, mas comida pelas traças.


Com pinta de boleiros, já no vestiário, sentados em bancos de madeira, semi podres disfarçados com tinta verde escura, esticávamos a faixa presa entre os dedos do pé pra fazer o rolinho que desenrolaria pressionado para proteger os tornozelos das botinadas adversárias. Os uniformes eram farrapos descartados pelo time principal adulto, e evidentemente imensos para nós crianças. Os meiões sem elástico eram presos por um barbante ou cadarço amarrado logo abaixo do joelho. Os calções pareciam saias, mas o que nos importava era a alegria em receber arremessada pelo treinador a camisa – lembrando, esburacada pelas traças – de titular com numeração limitada entre 1 e 11 determinando nossa posição.

A bola era única. Nada de peso e tamanho determinado por idade. Era uma bola de capotão (couro) que ensebávamos com um pedaço de carne engordurada – presenteada pelo açougue – para conservar ela lisa. Porém nos dias de chuva, o campo de terra transformava o futebol em rally e a bola virava um meteoro com placas de barro que a deixavam com o dobro do peso. Isso nos deixou com chutes poderosos comparado com o dos burguesinhos que jogavam com bolinha dente de leite nos campos de grama, mas também arrancava pedaços da nossa testa quando cabeceávamos. Difícil era convencer nossos pais que não houve briga e sim que o estrago foi feito pela bola.
Por falar em briga, nem sempre, mas em algumas MUITAS ocasiões, este campão de terra se transformava em praça de guerra. Bastava uma, somente uma jogadinha violenta pra gente se auto afirmar na porrada. O segredo era bater rodando e apanhar rodando também, as vezes tiro amigo, porque no agito da confusão não dava tempo de identificar o adversário, batia no primeiro que aparecia pela frente, principalmente se você já estiver com o olho roxo.
Ganhando ou perdendo, após o jogo a molecada se encontrava no boteco que ficava do lado de fora do alambrado pra receber nosso Bicho felizes da vida: um guaraná e um cachorro quente.
Essa era o retrato do nosso domingo feliz! rs
