SUSfocando a Saúde

Com a chegada da vacina contra a COVID 19 e a evolução da imunização do país vi uma série de elogios ao SUS vindo de pessoas que fazem parte de uma classe social mais abastada financeiramente, onde faziam questão de agradecerem com fotinhos no ato de suas vacinações divulgando-as com louvor nas redes sociais.

“Parabéns SUS!” era o texto compulsivamente dito por uma maioria que não depende, e portanto desconhecem as entranhas do Sistema Único de Saúde, porque para aqueles que dela necessitam, que amargam em longas filas e padecem antes do atendimento, esse ato cego pode representar o fim da esperança pela melhoria da Saúde no Brasil.

Resolvi documentar uma experiência vivida por mim e meus irmãos, ocorrida e ainda em curso, onde nestes últimos 20 dias necessitamos do SUS para cuidar de nossa mãe. Descobrimos na pele que o significado da palavra CUIDAR está muito distante do entendimento destes intitulados “profissionais” da saúde, o que nos levou a indignação pela falta de preparo e humanização no trato com as pessoas enfermas. Não falo da estrutura ofertada, mas da precariedade na qualidade do atendimento realizada por alguns profissionais.

Não existe empatia, não existe bom senso.  Os pacientes são um número cujo espaço deve ser desocupado com brevidade para que possam MAL ATENDER o próximo da fila. Esta é a leitura que faço baseada na experiência que segue abaixo:

Após uma série de exames realizados, uma enxurrada de diagnósticos controversos revelam a má formação dos médicos que avaliaram nossa mãe. Em um destes diagnósticos, grave infecção urinária, fomos indicados a procurar o Hospital referencia da Zona Leste, o Hospital Santa Marcelina.

Minha mãe sofre de Alzheimer e após uma fratura de fêmur no início de 2021, ela deixou de andar e sua locomoção é feita em cadeira de rodas. Porém, em minha total ingenuidade, acreditei que não precisaria levar sua cadeira de rodas para um Hospital de referencia, mas ao chegar, fomos recepcionados por uma atendente chamada Bruna, muito gentil e educada, nos informando que não havia cadeira de rodas disponível e que deveríamos aguardar.

A pressão (baixa) de minha mãe foi aferida ainda no carro de portas abertas enquanto a acompanhante da Casa de Repouso que me dava suporte, saía na caça por um cadeira. Por sorte, ou talvez azar, depende do ponto de vista, ela encontrou uma jogada em outra ala do Hospital, mas ao chegar me deparei com algo que mais se parecia com um trator do século passado. Uma cadeira quadrada feita de ferro que andava de lado como um caranguejo. Além de tudo, minha mãe sofre de dores na coluna e ao senta-la na cadeira disparamos um sofrimento ignorado por atendentes, técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos. Não importa se ela tem 79 anos e está com muita dor e visivelmente prostrada. Ela vai ter que esperar. Sequer um cobertor, sequer uma almofada.

Após algumas longas e dolorosas horas de espera na cadeira medieval, porque também não haviam macas no hospital de “referencia”, avistei uma maca deixada no corredor de outra ala pertencente ao SAMU. Peguei emprestada e disposto a não  devolver nem  para a ROTA. Mais algumas horas e chegamos ao Dr. Diego que após uma série de exames que demoram MAIS 5 Horas para ficarem prontos (É FATO), diagnosticou com uma infecção urinária e prescreveu uma série de medicamentos, antibióticos, um intramuscular, nada baratos e nos despachou.

Dois dias depois, em estado de prostração total, dormindo 23H 55 minutos por dia, corremos com ela de novo, agora para UPA do Tatuapé. UPA na teoria significa Unidade de Pronto Atendimento, mas na prática, Unidade de POSSÍVEL Atendimento. Para não ser repetitivo vou resumir a longas horas de espera antes da internação. Eu e meus irmãos ficamos surpresos pelo conforto das acomodações onde ela foi instalada. Apesar das UPAs servirem como um primeiro atendimento e com limitações a equipamentos para exames mais avançados, o espaço era confortável.

Após uma nova batelada de exames veio a notícia pesada que ela estava com SEPSE* e deveria ser encaminhada com urgência para o Hospital Municipal Cármino Caricchio, mais conhecido como Hospital do Tatuapé,  em frente a UPA em que estávamos.

* Sepse ou sépsis (antigamente conhecida como septicemia ou ainda infecção no sangue) é uma doença complexa e potencialmente grave. É desencadeada por uma resposta inflamatória sistêmica acentuada diante de uma infecção, na maior parte das vezes causada por bactérias.

As UPAS não permitem acompanhantes, portanto fomos informados por telefone que para a transferência, um dos filhos responsáveis deveria estar presente para acompanha-la na ambulância à partir das 10:30H  do dia seguinte.

10:30 meu irmão chegou e 13H eu e minha irmã o substituímos revezando para que pudesse trabalhar. Questionados sobre a demora ouvimos que não havia MACA disponível no Hospital Tatuapé e que somente após a liberação de uma bendita maca, a transferência seria realizada. Enquanto isso assistíamos ao show de horrores com drogados discutindo com seguranças e sendo presos, pessoas aguardando dobradas em dores com cólicas e assim por diante até 1H da madrugada do dia seguinte.

Neste intervalo chamaram minha irmã para ver minha mãe e tranquiliza-la porque estava agitada, certamente pela suspensão do medicamento chamado QUETIAPINA, receitado pelo neurologista para controlar o humor, necessidade para quem sofre de Alzheimer. Em 5 minutos em que minha irmã tentava acalmar minha mãe, um ser possuidor de um diploma de medicina (me recuso a chama-lo de médico, mas poderia elencar uma série de nomes ao qual ele se enquadra) invadiu a sala de internação falando alto como se estivesse na feira, dizendo que iria se livrar daquele lugar e apontando para os enfermos responsabilizando os parentes pela presença deles ali.

Posteriormente, desgastada pelo calvário vivido nos últimos dias, minha irmã educadamente (pra sorte dele era ela quem estava ali) pediu para ver o resultado dos exames e solicitou uma cópia para chegar com eles em mãos no Hospital para onde nossa mãe seria transferida e acelerar o processo. O jumento em questão, estupidamente respondeu que o acesso aos exames estaria disponível somente nas mãos do médico responsável pelo plantão para onde ela seria encaminhada.

Depois de tudo isso, surgiu um enfermeiro com bom senso ( fato raro nesta triste trajetória) chamado Claudinei, que ao perceber nossa indignação, se aproximou para entender o que havia ocorrido e prontamente nos trouxe os resultados dos exames, momento em que descobrimos a gravidade apresentada no laudo expedido. Além disso, nos liberou para irmos para casa descansar e que retornássemos após às 7:30 da manhã, porque acreditava que antes disso, seria inviável uma vaga na MACA.

Fechei os olhos às 2 horas, mas antes que meu sono ficasse profundo, 4 Horas da manhã, Claudinei, o bom enfermeiro, entra em contato comigo dizendo que minha mãe estava embarcando na ambulância e que deveria ter um de nós na porta do hospital para acompanhar nossa mãe no atendimento até às 4:30H, mais conhecido como “daqui a meia hora”! Resido em São Bernardo do Campo, então acionei meu irmão que mora próximo a UPA em questão e quase de pijamas se fez presente no horário solicitado.

Praticamente sem dormir, todos nós arrebentados, cheguei para substituir meu irmão às 7:30H.

Minha mãe estava deitada na bendita e requisitadíssima maca no meio de um corredor congestionado de doentes de toda a espécie. Pelo vidro redondo da porta balcão que dava acesso ao setor de internados era possível ver 3 enfermeiras em atendimento enquanto 2 técnicas em enfermagem faziam o que podiam no corredor. A internação para cuidar da infecção generalizada, com riscos e necessidade quase que imediata de entrar com os antibióticos parecia distante. Se a maca era rara imaginem um leito.

A situação caótica exigia apelos e adentrei porta adentro durante um respiro de atendimento e acessei o Doutor Nestor. Cabelos brancos, apresentando experiência, narrei a urgência indicada pela UPA e ele prontamente acelerou o processo solicitando uma refação de todos os exames.

Raio X, Tomografias, hemograma completo e exames de urina em mãos, 5 Horas depois, Dr. Nestor me aborda no corredor, com um parecer totalmente diferente: Inexistência total de sepsia e sim uma Anemia profunda. Minha mãe precisaria ser internada, mas quando, nem Deus sabia.

Entrando em agonia, apelei para alguns amigos na tentativa de acessar alguém no hospital que abreviasse o sofrimento de minha mãe. Aprovando o ditado que diz “quem tem amigos tem tudo”, minha mãe foi internada provisoriamente no setor de queimados e ali iniciado os cuidados para o tratamento da anemia.

Dividia um quarto confortável com TV, para abrigar somente 2 pacientes, onde conhecemos Dona Regina e seu filho Armando. Dona Regina aguardava há alguns dias para remoção de uma grande pedra nos rins. Antes dela ser encaminhada para a sala de cirurgia, veio a remoção de minha mãe para o sexto andar, ala da geriatria.

O que parecia ser um bom sinal por se tratar de um setor especializado em idosos, se revelou no maior pesadelo.

O quarto abriga 5 leitos. Cada leito possui uma luminária especial para permitir um atendimento individual noturno sem prejudicar o sono dos demais enfermos. Pelo menos em uma prática humanizada deveria ser assim, mas no Hospital do Tatuapé a palavra humanizado é desconhecida pelo setor.

A manipulação com os idosos doentes é bruta. Movimentam seus membros como se fossem bonecos ignorando dores reumáticas naturais nesta faixa acima dos 70 anos. Na primeira noite que assumi o plantão noturno em revezamento com meus irmãos, não acreditava no comportamento dos técnicos e enfermeiros de plantão. Mantinham a porta aberta constantemente e uma constelação de luzes acesas do quarto até a hora que bem entendessem. O corredor parecia um mercado de peixe. Gritavam entre as pontas do corredor, gargalhadas, lixeiras sendo arrastadas, pedidos de medicamento feitos a distância. Isso sem contar que, de forma inacreditável, a enfermagem mantém uma dispensa com insumos hospitalares dentro do quarto, rompendo noite a dentro acendendo todas as luzes para uso do armário e ignorando a presença de idosos doentes naquele recinto que agonizavam tentando dormir, além de todo mal estar, dor, ausência de um acompanhante por parte da maioria, portanto sós e com receio de reclamarem e piorar ainda mais a situação.

Cientes de que o sono é fator fundamental para recuperação e manutenção da saúde de qualquer ser vivo, que lugar é esse que chamam de hospital, mas na madrugada se assemelha ao inferno? Pelo menos foi esse o retrato imaginado por mim de como poderia ser a casa do anti-cristo.

Meu coração já saía pela boca e antes que explodisse procurei me informar com o enfermeiro Mário que cobria o setor naquele dia e estava no quarto naquele momento. Perguntei: Existe alguma necessidade em manter a porta aberta durante a madrugada? Nenhuma, respondeu prontamente. Segunda pergunta: qual a estimativa de horário para ministrar o ultimo medicamento nos pacientes do fatídico quarto 604? Examinou a prancheta e disse: 23 Horas. Terceira pergunta: Após este horário posso fechar a porta e apagar a luz para que os doentes possam ter uma noite de sono mais tranquila já que o barulho externo era intenso? Resposta: Sim, claro.

Além do barraco feito pela equipe de enfermagem, haviam gritos e gemidos naturais de dor que ecoavam pelas portas escancaradas de um quarto ao lado. Um cenário que mais se parecia com um ambiente de tortura.

Antes da saída de Mário questionei, mas desta vez em tom indignado porque não sou de ferro e meu saco não é de aço inox: Me explique o porque vocês acendem toda essa constelação de luzes durante a madrugada para verificar um único paciente se existe uma luminária acima de cada leito instalada para realização de atendimento individual? Porque acordar todos os outros se existem possibilidades para não fazer isso? Será que ninguém percebe que a porta escancarada e presa por uma lixeira bloqueia a entrada do banheiro dificultando o acesso dos idosos enfermos na madrugada que ainda são obrigados a fazer esforço físico para remover a lixeira e ao fazerem isso acordam os demais. Faxina na madrugada? Fecham a lixeira de forma bruta assustando os doentes que tentam retomar o sono? Que descanso é esse? Depois de um dia intenso de medicações e manipulações com banho, trocas de fraldas, limpezas, você não concorda que deveriam adotar um procedimento que zelasse pelo bem estar DELES e não facilitar o trabalho de vocês?

Minha forma didática e educada de falar (pelo menos penso ser assim rs) não escondia meu olhar de serial killer. Mário cabisbaixo, concordou com a cabeça.

Finalizei: sei que vocês estão sobrecarregados e muitas vezes isso tudo é imperceptível neste ritmo, mas gostaria que levasse isso adiante como sugestão para melhoria no atendimento de vocês, que não é bom. Te agradeço.

Mario saiu. Este papo aconteceu por volta das 6 Horas da manhã e foi um desabafo de minha parte após uma noite torturante.

Neste momento chega a equipe para a troca das fraldas das senhoras e pedem para que eu fique do lado de fora enquanto efetuam a assepsia.

Enquanto isso, caminhando pelo corredor em direção a área de enfermagem me deparo com o enfermeiro Mário saindo de uma sala sorrindo de forma irônica e ouço uma voz feminina dizer: Ele pensa que está onde? No Einstein?

O ELE era EU!

Calmamente cruzei a frente do Mário e antes que a porta se fechasse entrei na sala e surpreendi a grilo falante:

“Você pode não ter em mãos a estrutura física e tecnológica oferecida no Einstein, mas um serviço mais humanizado pensado no bem estar dos pacientes que chegam aqui precisando de conforto físico e emocional, isso é possível. Basta coração, bom senso e boa vontade. Um Einstein pode ofertar um certo luxo, mas não é porque estamos no SUS que o serviço tem que ofertar um certo lixo.”

Os olhares de alguns colaboradores que degustavam seu café da manhã estalaram com minha inesperada aparição. A Mocinha bocuda em questão, estatura baixa, cabelos negros encaracolados, usando óculos e uniforme azul de enfermagem extra G, sem crachá (cujo nome ainda não consegui, mas pelo biotipo e data do plantão, 6 Horas do domingo do dia 8 de maio, DIA DAS MÃES, será facilmente identificada), de forma arrogante alegou que as portas ficam abertas para ouvirem o chamado dos pacientes e que no quarto 604 as pacientes não andam até o banheiro! Antes que ela terminasse sua desculpa esfarrapadíssima, disparei sob os olhos arregalados da simpática Vanessa, responsável pela limpeza do andar: “Das 5 pacientes, 3 levantam à noite e caminham até o banheiro e se precisarem de auxílio, pelo quadro clínico, não possuem força vocal para pedir ajuda aos gritos. Estou lá e posso ajuda-las . Cada quarto é um quarto. Diferentes necessidades, mas para distingui-las é preciso coração”.

Ao encerrar meu discurso o silêncio tomou conta do andar. Atitude que deveria ter sido tomada durante todos os períodos. Talvez não reconheçam essa necessidade porque não existem aquelas antigas gravuras onde víamos a imagem de uma enfermeira com o  dedo indicador entre os lábios indicando o pedido de silêncio.

Precisamos investir em educação, mas principalmente em educação comportamental, pois vivemos em um país onde é necessário colocar placas nos banheiros implorando para o usuário dar descarga após o uso e não urinar fora do vaso! Assim sendo, acho que chegou a hora de resgatarmos a saudosa, porém oportuna imagem da enfermeira pedindo silêncio. Um símbolo do comportamento.

Estamos em um ano eleitoral e geralmente repleto de médicos se candidatando a deputado federal e prometendo cuidar melhor da saúde; Minha sugestão: Iniciem pela triagem, mas não dos pacientes, mas do corpo clínico. Tecnicidade você aprende, mas caráter, sensibilidade e amor ao próximo, não.

Deixe um comentário