Use do bom senso antes de pedir um orçamento

Sabemos que a elaboração de um orçamento para a produção de um material audiovisual é necessário um briefing detalhado para levantar custos que envolvem a pré-produção, produção e pós produção. E que dentro de uma matemática existente no universo da obviedade, a localização, ou localizações solicitadas para gravações geram custos de logística envolvendo número de diárias com a equipe, locação de van, combustível, pedágios, alimentação e hospedagem. Valores que não vão para o bolso do produtor. São custos detalhados e repassados para o cliente.

Apesar de parecer lógico, não se pode negligenciar a ignorância ou falta de bom senso de algumas pessoas.

Segue então, mais um momento vivido anos atrás que hoje recordei e resolvi compartilhar:

Quando sou indicado e recebo um contato de um novo cliente solicitando orçamento para uma produção, faço algumas perguntas que irão balisar a proposta criativa quando percebo estar falando com alguém virgem no quesito produção audiovisual.

Em meu questionário descobri que o contato telefônico gostaria de fazer seu primeiro vídeo institucional e que gostaria de ver captadas imagens de suas quatro unidades fabris espalhadas em pontos distantes dentro do Estado de São Paulo.

Perguntei se havia uma estimativa de valor que estava disposto a investir neste trabalho. Ele disse que não, mas que gostaria que eu orçasse o que tinha de melhor, afinal este material seria o cartão de visitas da sua empresa. OK!

Após horas de dedicação levantando custos de logística e demais valores de produção cheguei em um número X.

Formalizei por email e minutos depois recebo um telefonema?

  • Você está louco? X Mil reais? Impossível! Eu tenho 3 mil e quinhentos reais pra investir!

Respirei fundo e educadamente respondi:

  • Você lembra que a primeira pergunta que fiz à você foi se teria algum valor estimado para investir neste audiovisual e que você me respondeu que não, mas gostaria que eu orçasse o que tem de melhor porque seria seu cartão de visitas? Se você parar para pensar, vai perceber que somente os custos de logística com uma equipe de filmagem viajando por uma semana percorrendo pontos distantes no Estado de São Paulo corresponde a quatro vezes o valor sonhado por você! Se tivesse me dito que pretendia investir este valor, de cara teria dito que não eramos os profissionais que estava procurando, sem tomar o seu tempo e sem perder o meu.
  • RESPOSTA DO CIDADÃO: O que eu posso fazer com 3 mil e quinhentos reais?
  • MINHA RESPOSTA: Faz um miojo.

O PODER HIPNÓTICO NEGATIVO DO CELULAR

Quando surgiu o telefone celular exibidos como símbolos da modernidade pendurados na cintura como armas no coldre, retratava ali o futuro da comunicação que gerava conexão imediata entre as pessoas independente de sua localização. Claro que a expansão do sinal era limitada.

Atualmente a tecnologia evoluiu. Os smartphones vão além da possibilidade de fazer ligações telefônicas. São mini computadores com processadores poderosos e capacidade de armazenamento cada vez maiores. Design moderno, elegantes, servindo como uma ferramenta de comunicação rápida e efetiva na palma da mão.

Mas o que estes aparelhos fizeram com a cabeça das pessoas ao ponto de se transformarem em extensões de seus corpos e minimizar a capacidade de discernimento entre espaço púbico e privado?

Foi gerada uma necessidade de exposição da própria imagem com o estranho desejo de fazer parte de um núcleo seleto de influenciadores digitais, onde no mundo real convivemos com uma imensa massa que se deixa influenciar por qualquer bobagem que vai além do útil ou interessante, fatores que para mim seriam justificáveis dentro do universo individual do ser pensante.

Mas o que chama minha atenção é a capacidade que um smartphone possui de desconectar as pessoas do bom senso que todo ser humano comum, em teoria, deveria ter.

As pessoas preferem mensagens de texto do que ouvir a voz de um amigo. Dirigem seus carros ou motos ouvindo e mandando mensagens, mesmo sabendo sobre os perigos e o número de acidentes com vítimas causados por este tipo de atitude.

O ápice do absurdo que atinge a nota zero no quesito bom senso está na falta de sensibilidade em sentir que suas atitudes possam incomodar quem está ao seu lado.

Pessoas atendem o celular no ônibus e falam em uma altura como se a outra pessoa estivesse em outro planeta pra saber se o vizinho se curou da diarréia causada pela buchada comida no domingo, isso quando não atendem no teatro ou no cinema.

Neste momento, trabalhando em outra cidade, entre hospedagens e traslados de volta pra casa aos finais de semana, tenho vivido com frequência algumas experiiencias que fariam Freud se suicidar se ainda estivesse vivo.

Durante o café da manhã no hotel, momento em que gosto de me alimentar na paz do senhor e ler as notícias do dia, hóspedes sentam às mesas ao redor e assistem vídeos com volume que supera a TV. Ignoram a funcionalidade dos fones de ouvidos.

Presenciei também, na poltrona ao lado da minha no ônibus que me transportava para São Paulo, uma discussão entre marido e mulher em uma ligação por vídeo onde fui obrigado a conhecer detalhes de uma relação conturbada, isso durante a madrugada!

E o mais recente, no hotel em que estou hospedado, onde os quartos são todos voltados para um atrium a céu aberto, fui acordado por volta de meia noite por um cidadão que caminhava falando…ou melhor gritando em uma ligação com sabe lá quem, provavelmente com o Demônio, onde vociferava como se estivesse solo abandonado como sobrevivente de um naufrágil em uma ilha! O que não seria ruim. Mesmo “puto”, acreditem, respirei fundo e educadamente pedi com voz de anjo que fizesse a gentileza de falar mais baixo porque eu e os demais hóspedes precisavamos dormir.

Como resposta ouvi: Com quem você pensa que está falando? Respondi: com alguém mal educado.

Alguns segundos de silêncio e a porta do quarto deste quadrúpede é fechada violentamente abalando a estrutura física do hotel.

A que ponto chegamos e quais as novas surpresas comportamentais que virão é um mistério para os seres de bom senso que ainda habitam em nosso planetinha de grandes dimensões povoada por alguns imbecilóides.