Os chinelos teleguiados da minha mãe

Nasci em São Paulo no bairro da Água Rasa localizado entre o Tatuapé do Corinthians e a Moóca do Juventus, mas como raríssimas pessoas sabiam sua localização, eu e meus amigos, pra não ficar explicando demais, ou pior, dizer que era no início da avenida Sapopemba (nome feio da pemba), que afastava a freguesia, então dizíamos que morávamos no Alto da Moóca, pronto.

Ainda molequinho, me lembro do tico-tico e da lambretinha a pedal, da toalha nas costas que faziam a mim e ao meu irmão acreditar sermos super-heróis e caminhávamos sobre o muro como gatos até sermos resgatados pela orelha por nossa delicada mãezinha. Eu e meu irmão devíamos gostar do Zorro (olha a memória falhando) pois ganhamos de presente de nossos pais um kit com Chapéu, máscara e espada. As espadas eram de borracha flexível estilo cassetete e não tardou sua utilidade para deixarmos as marcas do ZORRO nos vizinhos metidos a besta que moravam em frente nossa casa, deixando alguns vergões na lembrança daqueles três irmãos que, até aquele dia, nos enchiam os pacová.

Porém a sova que levamos na sequencia de nossa santa mãe foi pior.

Por falar em sova, minha mãe possuía chinelos, tamancos ou qualquer coisa que estivesse calçando com a capacidade teleguiada por sua fúria que permitia a seus calçados fazerem curvas e nos atingir com a precisão de um franco atirador. Tenho isso gravado na memória e por anos em galos que saltavam da minha testa.

Me lembro também da primeira bicicleta, uma bandeirantes, pneu maciço e sem freio que destruí junto com algumas partes do meu corpinho cabeçudo no portão de aço da garagem de um vizinho que ficava na curva da ladeira ao lado da nossa casa.

Minha cabeça era algo notável, não pela inteligência, mas pela sua leve dimensão. Ao tentar chamar a atenção do meu pai, entrava na frente da TV, abria os braços e dizia:

  • Agora ninguém vê mais!

E de bate pronto o sacana do meu pai respondia para deleite de meu irmão:

  • Nem precisa abrir os bracinhos !

Assim como fez com meu irmão, minha mãe me acompanhou até a porta do colégio de freiras “Nossa Senhora de Lourdes” e durante o trajeto dizia para que eu memorizasse o caminho caso precisasse ir sozinho. Íamos sós. Eu e meu irmão. Seis e sete anos de idade respectivamente caminhávamos algumas boas quadras. Outros tempos.

Primeiro dia de aula, lembro do chorinho na entrada do colégio me sentindo abandonado pela minha mãe e pelo meu irmão que já corria na direção dos amiguinhos de classe, mas no dia seguinte, estava eu também correndo pra galera.

Minha primeira professora se chamava irmã Leocádia – com este nome tinha que ser freira, que Deus me perdoe – não sei o que ela aprendeu em seu ensino religioso, mas ela transformava a sala de aula em um calvário. Caminhava como uma general entre as carteiras empunhando uma régua de madeira de 40 centímetros pronta para ser usada contra o primeiro engraçadinho.

Usávamos uma mala acartonada para levar o material escolar e um dia retornando pra casa debaixo de chuva, advinha, vi partir em retirada pela enxurrada, caderno, livro e estojo pelo fundo da malinha rasgado pela umidade.

Tomamos outro pau. Em casa era sim. Na dúvida de quem foi o responsável pela merda, apanhava os dois. Era phuds!

Nossos pais trabalhavam e à tarde ficávamos sós, eu e meu irmão, 11 meses mais velho, com a única tarefa de fazer o dever de casa.

Um dia, após finalizar nossos afazeres escolares, enquanto eu brincava com bolinhas de gude no chão, meu irmão arremessava pequenas bolinhas de “papel amassado” na direção do lustre em forma de globo que ficava na sala. Ingenuamente, acho eu, pensei que o som do impacto de uma bolinha de gude seria maior que o das bolinhas de papel. Competição entre irmãos. Bastou um único tiro certeiro para moer o globo.

Lembro de minha mãe adentrar a casa poucos minutos depois deste extraordinário e imbecil feito dizendo:

  • Cadê meus anjinhos!

E menos de um segundo depois, ao ver os cacos de vidro no chão…

  • Puta Que Pareoooooooooooooooooooooo !

Conhecendo a fera, já aguardávamos nossa algoz dentro do banheiro com a porta fechada a chave. Eu e meu irmão havíamos combinado de só abrir a porta quando a leoa se acalmasse, porém o traíra abriu a porta e saiu gritando:

  • Foi o Mi! Foi o Mi*!

(*Mi era meu apelido de infância porque este infeliz não conseguia – evidentemente pronunciar o meu nome, tipicamente brasileiro, Wladimir.)

Recordando que a lei da casa era “na dúvida apanha os dois”, a porta mal se abriu e ele já tomou o primeiro Box e saiu dançando bolero pelo corredor. Eu estava encolhido feito um tatu bola protegendo a cabecinha avantajada ao lado do vaso sanitário, mas ao levantar o olhar vi um cinto entrar antes de minha mãe no recinto – cinto no recinto, sinto muito – que se transformaria em um octógono de MMA onde eu seria nocauteado no primeiro round e como prêmio de consolação ganharia o apelido de zebra pelos coleguinhas demoníacos, discípulos da irmã Leocádia, parente de Lúcifer.

Lembro de brincar muito no recreio (nome dado ao intervalo no colégio) ao ponto de esquecer de ir ao banheiro. Entrava na sala de aula e pedia para Santa Irmã Leocádia:

  • Posso ir no banheiro?

Com olhar de lobo a freirinha de 1,5 metro de pura cortesia respondia:

  • O recreio serve para isso também. Agora, se estiver apertado, faz nas calças.

Não levei a ordem ao pé da letra, porém o perigo real e imediato me fez sacar o “junior” e descarregar a urina direcionando o jato para frente. O desespero era tamanho que não me atentei a Nizinho, a coleguinha sentada na carteira à minha frente com a infeliz mania de manter seus pezinhos e perninhas com meias brancas ¾ do uniforme  recolhidos para trás, ou seja, praticamente em baixo da minha carteira.

Naquela época a escola era uma extensão de casa
Mil e uma utilidades

Não preciso contar o resto. Vou deixar para sua imaginação, mas o resultado foi, após o grito da “miguinha, conhecer de perto, bem de perto, pertíssimo, a régua de madeira Leocadiana e o caminho percorrido com minha orelha suspensa até a diretoria.

Mais um cacete maternal.

Lembro também de meu irmão ficar com uma pusta febre porque minha mãe não comprou um aviãozinho de plástico verde com as asas vermelhas ( e ele não torcia para a Portuguesa de Desportos, era corintiano e virou palmeirense, vai entender) que ele viu em uma vitrine a caminho da escola. A febre só cedeu quando nossa tia Zélia apareceu com o danado lá em casa e deu de presente pra ele.

Tivemos Forte Apache, Autorama Interlagos… meu irmão rasgou o saco em um prego espetado em um cabo de vassoura que ele acreditava ser o cavalo do zorro…pensando bem este zorro só trouxe desgraça pra nossa infância!