Futebol de campo, de salão, na escola, mas onde o pau comia mesmo era na rua.
As traves eram chinelos ou pedaços de pedras afastados a três passos. Lateral só se a bola caísse no terreno vazio. Portão, muro e meio fio (guia) da calçada eram usados para fazer tabelinha. Diferente do futebol britânico, onde os jogadores possuem nomes que mais lembram dinastias, o jogador brasileiro tinha apelidos: Didi, Vavá, Pelé, então seguindo as regras do nosso país, eis os nomes dos atletas do asfalto: Mi, Wande, Cacalo, Cato, Cabeção, Pesão, Caçapa, Zoinho, Tacílio, Negrão, Neizinho, Tildo, Tarso, Ninho, Giba, Guba, Kiko e Pistolinha.
O time era escolhido de forma equilibrada entre melhores e mais ou menos, ou menos menos. Tinha gente que chutava a favor do vento. Este era o critério pra deixar a pelada competitiva e muito divertida, pelo menos até a bola cair no quintal da casa da Cigana (apelido dado devido ao figurino e aos brincos de argola com capacidade para pendurar uma tolha de banho), vizinha que mantinha o Dodge Dart do marido na rua para não estragar seu jardim de rosas. Foram algumas bolas rasgadas que deram início a uma pequena guerra com a molecada.

Um moleque sozinho já é perigoso, um monte já é formação de quadrilha. Arquitetamos um plano que foi aprovado por unanimidade: Todos faríamos xixi em um galão de 18 litros (latão de tinta vazia) posicionado do outro lado do muro de um terreno vazio em nossa rua que pertencia ao posto de gasolina localizado na avenida paralela. Então, deu vontade de mijar, pula o muro e enche o latão. Nossa rua era uma vila com casinhas geminadas e garagem para um carro. A casa do Toninho Caçapa era colada na casa da Cigana (Dona Ruth) e possuía um murinho que cobria o registro de água e serviria como nossa plataforma de lançamento de xixi sobre as lindas roseiras da megera. Nossa rua se chamava São José, mas o nome da santidade não impediria nossa vingança. Na calada da noite despejamos o conteúdo cujo perfume seria suficiente para dizimar o Jardim do Eden. A molecada era a base de kisuco, portanto nem a grama sobreviveu. Não sobrou nada além dos gritos da bruxa na fatídica manhã em que acordamos todos a gargalhadas.
O campo de batalha foi formado. Mesmo a pedido do Neco, seu marido que lhe dizia para não arrumar confusão com moleque, ela permaneceu no “front” com sua faca de pão afiada destruindo nossas bolas.

Pensamos no Plano B: Se xixi não foi suficiente para acalmar a ira da esquisita, merda nela. No final da Vila, havia um estacionamento que servia para descarregar os produtos de um restaurante localizado na rua de cima e com um banheiro para funcionários cuja relação com a higiene não era das melhores.
Porém isso favorecia nosso plano: recolher merda para rechear a maçaneta do fusca 73 (que era oca) da bruxa ciganhenta.
Durante a semana nossa arqui inimiga levava seu filho esquisito na escola, aliás essa era a principal característica daquele núcleo familiar capaz de deixar a Família Adams confusa. Com nossa ação devidamente planejada, minutos antes do início da rotina, enxertamos um “toronço” campeão (nome dado àqueles troncos de merda que mereciam nome e cerimônia de batismo) no interior da maçaneta do fusca usando um palito de picolé e sentamos na calçada do outro lado da rua que serviria de camarote para assistir àquele que se pronunciava ser o maior espetáculo a céu aberto da Água Rasa!
A vamp abre o portão e caminha na direção do fusca bomba. Tentem imaginar a cena: Ela em câmera lenta. Seu vestido longo coloridão tremula ao vento. As imensas argolas dos brincões e pulseiras tilintam enquanto ela nos fuzila com seu olhar de sombra azul e cílios postiços ameaçador. O molho de chaves é sacado da bolsa tão colorida quanto o vestido e sua maquiagem. A chave gira a tranca e sua mão esquerda parte na direção da esmerdalhada maçaneta. Nossas sobrancelhas se levantam com a mesma intensidade da tensão e da taquicardia que toma conta dos esqueletos bandidos que se remexem sobre a calçada. Neco observa a cena e enquanto fuma seu cigarro, que entre uma baforada e outra, cria uma cortina de fumaça capaz de esconder os tênis pendurados na fiação da rua. Nossa ansiedade nos fazia imaginar o som da merda penetrando os vãos entre os dedos de unhas imensas e claro, coloridonas como o vestido, a maquiagem e a bolsa. Ao pressionar a maçaneta nosso sonho se realiza. A bruxa não acredita que aquilo possa estar acontecendo. Olha para a mão esquerda e inicia o movimento de levar ao nariz, mas não foi necessário. O aroma fedorento chicoteou sua cara que agora expressava uma mistura de nojo e ódio. Seu olhar era de uma serial killer. No camarote, também em câmera lenta, segurávamos o prazer da vingança nos olhos lacrimejados de felicidade pela execução vitoriosa do nosso plano que culminaria em uma imensa gargalhada ao ouvir a frase indignada da Cigana da São José:
- Neco! É merda Necooooooo!
Neco engasgado na fumaça dispara com um certo ar de satisfação compartilhada:
- Eu avisei você pra não arrumar confusão com moleque, não avisei?

Explodíamos em êxtase enquanto Neco escondia seu sorriso maroto de apoio velado à nossa missão e disparávamos ladeira abaixo para não sermos executados em plena luz do dia sem direito a julgamento.
Resultado: Nossas bolas não seriam mais rasgadas e nossas necessidades fisiológicas não precisariam mais serem compartilhadas. A paz reinava no front que agora mudava o nome de Rua São José para Rua Baía das Garças, ou seria Baía das Desgraças? Não me lembro.
Eu era bem garoto. A bola era nosso ícone. Durante a semana, estudava pela manhã e já no intervalo ou recreio como era chamado na época, 20 minutos que deveriam ser destinados a uma rápida alimentação, nosso lance era comer a bola, que na sua ausência, era substituída por papel, chumaço de pano, tampinha de garrafa ou qualquer outro objeto que pudesse ser chutado na direção do gol adversário, cujas traves eram formadas por sandálias de borracha ou pedras perdidas pela escola.


O senhor Joaquim, um homem gordo, muito simpático – que apesar do nome portugues tinha origem italiana – com imensa alegria distribuia com carinho os meiões sem elástico e os calções e camisas do clube já bem surradas pelo time principal. Isso mesmo. Fardamento de adulto. Era o que tínhamos e adorávamos aquilo. Usar o mesmo uniforme do time principal do 7 de Setembro da Água Rasa!
É claro que toda locomoção e habilidade ficava debilitada com nosso esqueletinho sambando dentro de uma camisolona e um calção largo, franzido pelo cordão e abaixo do joelho, mas esse não era nosso principal desafio. A Bola era também para adultos. Bola especial para idade eram um luxo encontrado nos clubes de ponta. O campo era de terra, que na chuva ficava mais apropriado para a prática de motocross do que para futebol. Mas o pior de tudo era a cruel combinação entre bola pesada e barro. A bola se transformava em um meteóro que ao cabecear-mos a bandida, tínhamos pedaços de pele da testa arrancados ao ponto de nos fazer parecer personagens saídos do seriado “Vikings”. Verdadeiros Guerreiros. Mas em contrapartida, o peso da bola proporcionou aos garotos da várzea chutes poderosos sentidos pelos adversários quando disponibilizavam – para o azar deles – a bola adequada para nossa idade. Éramos verdadeiros canhões. Fato que em futuro próximo nos levou a jogar em times mais expoentes.
Situações como jogar no campo do Vera Cruz, localizado no meio da favela (atual comunidade) da Vila Prudente, cujo centro era marcado por um paralelepípedo e o time “dente de leite” composto por jogadores barbados com pernas cabeludas, nos davam 2 opções: Perder ou tomar um pau.
Este último porém ficou marcado por alguns momentos de arrepiar. Casa cheia. Ao redor de todo alambrado não existia um espaço vazio. Eu, com 15 anos era um moleque atrevido e sabia que bem mais baixo que o Gazela, não poderia deixar o cara matar a bola. Tinha que antecipar todas. E assim foi por todo o primeiro tempo. O problema começou logo no início do segundo tempo quando, atacando agora para o lado oposto, a minha lateral tangenciava o bar onde se concentrava a torcida do time adversário, o “Sapopemba”. Me lembro de ouvir um pusta de um negrão usar de um jargão futebolístico da época: Acaba com este cabaço Gazela! Como disse, moleque e atrevido e agora com o brio chacoalhado, antecipei um passe destinado à estrela principal, joguei para o meio de campo e corri para a linha de fundo para receber um toque em profundidade, sob forte marcação do boleiro Gazela. Ameacei cruzar, mas senti que meu marcador de pernas longas se esticava para interceptar o cruzamento. Foi aí que ousei e meti a bola no meio das pernas do bonitão e servi de bandeja para o centroavante abrir o placar. Tudo muito lindo se o besta aqui não tivesse ido até o alambrado onde se encontrava o cidadão que ordenara meu massacre e usar das mesmas palavras educadas disparadas por uma língua felina típica de um adolescente cheio de merda na cabeça: Quem é o cabaço aqui?
Amigos, a recordação que tenho deste sublime momento, mais se parece com uma cena de filme do Tarantino. Em câmera lenta, o cidadão levantou a camisa e percebi que preso a cintura de pilão da criança descansava um cano brilhante de calibre gigante e que em segundos estaria empunhado e apontado para minha direção, porém corri mais que um leopardo para o outro lado do campo deixando um rastro de medo e poeira pela trilha percorrida. O acesso ao campo era feito por um único portão de ferro e lá estava meu algoz tentando passar pela muralha chamada Zulu, que após ter agradecido o moleque metido que o presenteara com o gol, em gratidão, o centroavante cruzou o campo para tomar a arma do meu pretendente funerário e ainda dar uns catiripapos no negrão. Era negrão contra negrão, mas o nosso era Phuds! Graças a Deus!