AS ENTRELINHAS DAS PALAVRAS MALDITAS OU MAL DITAS

Não sei de onde vieram alguns vícios de linguagem, mas para aqueles que gostam como eu de tentar entender o que não é para ser entendido, gostaria aqui de fazer uma pequena reflexão sobre algumas palavras ou frases empregadas pelo impulso de repetição no excesso de seu uso.

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Por exemplo:

Se vocês repararem, 99,99% dos youtubers começam seu vídeos com “FALA GALERA!” . Mas você sabe qual a origem da palavra “galera”? Galera era a área localizada nos porões das antigas embarcações movidas a grandes remos, onde escravos eram acorrentados e obrigados a doar toda sua força física para mover a nau. Não sei qual a relação, mas no futebol, a analogia foi feita para dar nomenclatura a torcida! Talvez pela aglomeração ou fanatismo que os transforma em escravos do time de coração? Talvez. Mas e no caso dos Youtubers? Escravos do belo conteúdo apresentado pela minoria? Sei lá!

Tem outras 2 palavrinhas que são comumente usadas em início de frases que para mim representam a abertura de uma pusta desculpa. Prestem atenção quando ouvi-las e reparem no que virá depois. Ei-la: VEJA BEM. Geralmente elas estão atreladas as entrevistas dadas por políticos quando encurralados pela imprensa. Significa que você tentará explicar o que é inexplicável, manja?

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Outra que representa uma baita contradição é: NA VERDADE… Pô, péra aí! Se após uma super tentativa de explicar algo você manda um “Na verdade…” significa que tudo que disse anteriormente era mentira?

file_54130a768724bO problema destes vícios de linguagem é que muita gente quando não entende direito ou não é chato o suficiente como eu, acaba cometendo deslizes criando verdadeiras pérolas de dar nó na cabeça de gringo que está tentando aprender nossa língua, cuja gramática sabemos ser extremamente complexa.

Certa vez estava eu sentado ao fundo do busão, quando ao meu lado um profeta disse ao seu “colégua”: Eu acho expecionante” as pessoas que perdem oportunidades. Se eu fosse ela, agarraria com as “unhas dos dentes”!

 pleonasmo

Tem coisas que quando ditas e captadas por ouvidos demoníacos como os meus não passam despercebidas e preciso compartilhá-las pois retrata a falta de investimentos em educação no nosso país. Por outro lado, descobri um hobby que é anotar tudo no meu caderninho de maldades.

Que tal: “Exploradicamente”, “Feijão torpedo”, “Pudim de leite condenado”,Não adianta chorar sobre o leite desnatado”! Ou você morre de rir ou mata o infeliz ignorante na porrada! Coloco entre “aspas” para evitar que elas escapem e poluam sua HD.

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Faltou: Lagarto e não “Largato”

Haja capacidade para tanta “ingnorança” !

A língua portuguesa não é fácil e muda seus padrões de estado para estado. Quase um dialeto. Imaginem um turista alemão ou americano que se esforça para aprender nossa língua e chega no nordeste e escuta um “simbora mais eu” ! Ou no Rio de Janeiro onde o “O” tem som de “U”. Por exemplo: TUMATE. Caramba, se tomate é “tumate” quer dizer que a Xuxa é Xoxa?

Em Pernanbuco, a gente é “ARRENTE” e após uma pergunta feita a um cidadão local ele inicia a frase com “PRONTO” ! Qual seu nome? R: Pronto. João.

Pra nós brasileiros isso é maravilhoso pois retrata a diversidade cultural do nosso Brasil, mas para quem é de outro país tentando aprender nossa língua é de dar um nó no “célebro” e tudo é uma “questã” de “estendimento”, certo?

Preconceito linguistico

Maravilhoso? Será? humm

Direito ao Palavrão – por Pedro Ivo Resende

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos.

É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. Sem que isso signifique a “vulgarização” do idioma, mas apenas sua maior aproximação com a gente simples das ruas e dos escritórios, seus sentimentos, suas emoções, seu jeito,sua índole.

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Dercy Gonçalves
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“Pra caralho”, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que “Pra caralho”? “Pra caralho” tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?No gênero do “Pra caralho”, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso “Nem fodendo!”. O “Não, não e não!” e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade “Não, absolutamente não! “o substituem. O “Nem fodendo” é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo “Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!”. O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.Por sua vez, o “porra nenhuma!” atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um “é PhD porra nenhuma!”, ou “ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!”. O “porra nenhuma”, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos “aspone”, “chepone”, “repone” e, mais recentemente, o “prepone” – presidente de porra nenhuma. Há outros palavrões igualmente clássicos.Pense na sonoridade de um “Puta-que-pariu!”, ou seu correlato “Puta-que-o- pariu!”, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba… Diante de uma notícia irritante qualquer um “puta-que-o-pariu!” dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.E o que dizer de nosso famoso “vai tomar no cú!”? E sua maravilhosa e reforçadora derivação “vai tomar no olho do seu cú!”.Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando,passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: “Chega! Vai tomar no olho do seu cú!”. Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima.Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face,olhar firme,cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: “Fodeu!”. E sua derivação mais avassaladora ainda: “Fodeu de vez!”.

Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? “Fodeu de vez!”. Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de “foda-se!” que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do “foda- se!”?

foda-se

O “foda-se!” aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. “Não quer sair comigo? Então foda- se!”. “Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda- se!”. O direito ao “foda-se!” deveria estar assegurado na Constituição Federal. Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se!. Grosseiro, mas profundo…
Pois se a lingua é viva, inculta, bela e mal-criada, nem o Prof. Pasquale explicaria melhor. “Nem fodendo.

NOTA: Quero me desculpar com o autor do texto Pedro Ivo Resende e aos leitores pelo equívoco no crédito dado a Luís Fernando Veríssimo. Obrigado Paulo Sérgio Pfaff  pelo alerta e sinto muito por ter lhe causado constrangimento pelo compartilhamento com informação errado sobre o autor.