CORDEL DESTE MUNDINHO

Que mundo é esse

que o ser humano vira dados,

informação pra deixar de ser gente

e de repente é colocado de lado

porque perdeu relevância

não tem mais importância,

pois a máquina da ganância

ignora o sentimento, a vida

que em algum momento foi útil,

mas esqueceu de marcar presença

na futilidade de um Facebook

que nada mais é que um truque

pra fugir do mundo real

acreditando no novo normal,

vivendo de aparência

mesmo que usando os filtros da indecência

pra mostrar algo que ninguém quer saber

da like sem ver

pra mostrar que curte você? Ou o que?

Sou do tempo que o galo cantava

O chinelo da minha mãe voava

A bola rolava na rua

e a gente sentava a pua.

Amigos na calçada proseavam madrugada a dentro

Diversão pura a todo momento

Sem perceber a passagem do tempo

Porque ali tinha verdade, sentimento

Algo profundo esquecido pelo mundo

Mas espero que por um segundo

isso seja resgatado

valorizado

pro ser humano deixar de ser um dado,

uma informação,

e voltar a ser simplesmente gente

com poder no coração.

SUSfocando a Saúde

Com a chegada da vacina contra a COVID 19 e a evolução da imunização do país vi uma série de elogios ao SUS vindo de pessoas que fazem parte de uma classe social mais abastada financeiramente, onde faziam questão de agradecerem com fotinhos no ato de suas vacinações divulgando-as com louvor nas redes sociais.

“Parabéns SUS!” era o texto compulsivamente dito por uma maioria que não depende, e portanto desconhecem as entranhas do Sistema Único de Saúde, porque para aqueles que dela necessitam, que amargam em longas filas e padecem antes do atendimento, esse ato cego pode representar o fim da esperança pela melhoria da Saúde no Brasil.

Resolvi documentar uma experiência vivida por mim e meus irmãos, ocorrida e ainda em curso, onde nestes últimos 20 dias necessitamos do SUS para cuidar de nossa mãe. Descobrimos na pele que o significado da palavra CUIDAR está muito distante do entendimento destes intitulados “profissionais” da saúde, o que nos levou a indignação pela falta de preparo e humanização no trato com as pessoas enfermas. Não falo da estrutura ofertada, mas da precariedade na qualidade do atendimento realizada por alguns profissionais.

Não existe empatia, não existe bom senso.  Os pacientes são um número cujo espaço deve ser desocupado com brevidade para que possam MAL ATENDER o próximo da fila. Esta é a leitura que faço baseada na experiência que segue abaixo:

Após uma série de exames realizados, uma enxurrada de diagnósticos controversos revelam a má formação dos médicos que avaliaram nossa mãe. Em um destes diagnósticos, grave infecção urinária, fomos indicados a procurar o Hospital referencia da Zona Leste, o Hospital Santa Marcelina.

Minha mãe sofre de Alzheimer e após uma fratura de fêmur no início de 2021, ela deixou de andar e sua locomoção é feita em cadeira de rodas. Porém, em minha total ingenuidade, acreditei que não precisaria levar sua cadeira de rodas para um Hospital de referencia, mas ao chegar, fomos recepcionados por uma atendente chamada Bruna, muito gentil e educada, nos informando que não havia cadeira de rodas disponível e que deveríamos aguardar.

A pressão (baixa) de minha mãe foi aferida ainda no carro de portas abertas enquanto a acompanhante da Casa de Repouso que me dava suporte, saía na caça por um cadeira. Por sorte, ou talvez azar, depende do ponto de vista, ela encontrou uma jogada em outra ala do Hospital, mas ao chegar me deparei com algo que mais se parecia com um trator do século passado. Uma cadeira quadrada feita de ferro que andava de lado como um caranguejo. Além de tudo, minha mãe sofre de dores na coluna e ao senta-la na cadeira disparamos um sofrimento ignorado por atendentes, técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos. Não importa se ela tem 79 anos e está com muita dor e visivelmente prostrada. Ela vai ter que esperar. Sequer um cobertor, sequer uma almofada.

Após algumas longas e dolorosas horas de espera na cadeira medieval, porque também não haviam macas no hospital de “referencia”, avistei uma maca deixada no corredor de outra ala pertencente ao SAMU. Peguei emprestada e disposto a não  devolver nem  para a ROTA. Mais algumas horas e chegamos ao Dr. Diego que após uma série de exames que demoram MAIS 5 Horas para ficarem prontos (É FATO), diagnosticou com uma infecção urinária e prescreveu uma série de medicamentos, antibióticos, um intramuscular, nada baratos e nos despachou.

Dois dias depois, em estado de prostração total, dormindo 23H 55 minutos por dia, corremos com ela de novo, agora para UPA do Tatuapé. UPA na teoria significa Unidade de Pronto Atendimento, mas na prática, Unidade de POSSÍVEL Atendimento. Para não ser repetitivo vou resumir a longas horas de espera antes da internação. Eu e meus irmãos ficamos surpresos pelo conforto das acomodações onde ela foi instalada. Apesar das UPAs servirem como um primeiro atendimento e com limitações a equipamentos para exames mais avançados, o espaço era confortável.

Após uma nova batelada de exames veio a notícia pesada que ela estava com SEPSE* e deveria ser encaminhada com urgência para o Hospital Municipal Cármino Caricchio, mais conhecido como Hospital do Tatuapé,  em frente a UPA em que estávamos.

* Sepse ou sépsis (antigamente conhecida como septicemia ou ainda infecção no sangue) é uma doença complexa e potencialmente grave. É desencadeada por uma resposta inflamatória sistêmica acentuada diante de uma infecção, na maior parte das vezes causada por bactérias.

As UPAS não permitem acompanhantes, portanto fomos informados por telefone que para a transferência, um dos filhos responsáveis deveria estar presente para acompanha-la na ambulância à partir das 10:30H  do dia seguinte.

10:30 meu irmão chegou e 13H eu e minha irmã o substituímos revezando para que pudesse trabalhar. Questionados sobre a demora ouvimos que não havia MACA disponível no Hospital Tatuapé e que somente após a liberação de uma bendita maca, a transferência seria realizada. Enquanto isso assistíamos ao show de horrores com drogados discutindo com seguranças e sendo presos, pessoas aguardando dobradas em dores com cólicas e assim por diante até 1H da madrugada do dia seguinte.

Neste intervalo chamaram minha irmã para ver minha mãe e tranquiliza-la porque estava agitada, certamente pela suspensão do medicamento chamado QUETIAPINA, receitado pelo neurologista para controlar o humor, necessidade para quem sofre de Alzheimer. Em 5 minutos em que minha irmã tentava acalmar minha mãe, um ser possuidor de um diploma de medicina (me recuso a chama-lo de médico, mas poderia elencar uma série de nomes ao qual ele se enquadra) invadiu a sala de internação falando alto como se estivesse na feira, dizendo que iria se livrar daquele lugar e apontando para os enfermos responsabilizando os parentes pela presença deles ali.

Posteriormente, desgastada pelo calvário vivido nos últimos dias, minha irmã educadamente (pra sorte dele era ela quem estava ali) pediu para ver o resultado dos exames e solicitou uma cópia para chegar com eles em mãos no Hospital para onde nossa mãe seria transferida e acelerar o processo. O jumento em questão, estupidamente respondeu que o acesso aos exames estaria disponível somente nas mãos do médico responsável pelo plantão para onde ela seria encaminhada.

Depois de tudo isso, surgiu um enfermeiro com bom senso ( fato raro nesta triste trajetória) chamado Claudinei, que ao perceber nossa indignação, se aproximou para entender o que havia ocorrido e prontamente nos trouxe os resultados dos exames, momento em que descobrimos a gravidade apresentada no laudo expedido. Além disso, nos liberou para irmos para casa descansar e que retornássemos após às 7:30 da manhã, porque acreditava que antes disso, seria inviável uma vaga na MACA.

Fechei os olhos às 2 horas, mas antes que meu sono ficasse profundo, 4 Horas da manhã, Claudinei, o bom enfermeiro, entra em contato comigo dizendo que minha mãe estava embarcando na ambulância e que deveria ter um de nós na porta do hospital para acompanhar nossa mãe no atendimento até às 4:30H, mais conhecido como “daqui a meia hora”! Resido em São Bernardo do Campo, então acionei meu irmão que mora próximo a UPA em questão e quase de pijamas se fez presente no horário solicitado.

Praticamente sem dormir, todos nós arrebentados, cheguei para substituir meu irmão às 7:30H.

Minha mãe estava deitada na bendita e requisitadíssima maca no meio de um corredor congestionado de doentes de toda a espécie. Pelo vidro redondo da porta balcão que dava acesso ao setor de internados era possível ver 3 enfermeiras em atendimento enquanto 2 técnicas em enfermagem faziam o que podiam no corredor. A internação para cuidar da infecção generalizada, com riscos e necessidade quase que imediata de entrar com os antibióticos parecia distante. Se a maca era rara imaginem um leito.

A situação caótica exigia apelos e adentrei porta adentro durante um respiro de atendimento e acessei o Doutor Nestor. Cabelos brancos, apresentando experiência, narrei a urgência indicada pela UPA e ele prontamente acelerou o processo solicitando uma refação de todos os exames.

Raio X, Tomografias, hemograma completo e exames de urina em mãos, 5 Horas depois, Dr. Nestor me aborda no corredor, com um parecer totalmente diferente: Inexistência total de sepsia e sim uma Anemia profunda. Minha mãe precisaria ser internada, mas quando, nem Deus sabia.

Entrando em agonia, apelei para alguns amigos na tentativa de acessar alguém no hospital que abreviasse o sofrimento de minha mãe. Aprovando o ditado que diz “quem tem amigos tem tudo”, minha mãe foi internada provisoriamente no setor de queimados e ali iniciado os cuidados para o tratamento da anemia.

Dividia um quarto confortável com TV, para abrigar somente 2 pacientes, onde conhecemos Dona Regina e seu filho Armando. Dona Regina aguardava há alguns dias para remoção de uma grande pedra nos rins. Antes dela ser encaminhada para a sala de cirurgia, veio a remoção de minha mãe para o sexto andar, ala da geriatria.

O que parecia ser um bom sinal por se tratar de um setor especializado em idosos, se revelou no maior pesadelo.

O quarto abriga 5 leitos. Cada leito possui uma luminária especial para permitir um atendimento individual noturno sem prejudicar o sono dos demais enfermos. Pelo menos em uma prática humanizada deveria ser assim, mas no Hospital do Tatuapé a palavra humanizado é desconhecida pelo setor.

A manipulação com os idosos doentes é bruta. Movimentam seus membros como se fossem bonecos ignorando dores reumáticas naturais nesta faixa acima dos 70 anos. Na primeira noite que assumi o plantão noturno em revezamento com meus irmãos, não acreditava no comportamento dos técnicos e enfermeiros de plantão. Mantinham a porta aberta constantemente e uma constelação de luzes acesas do quarto até a hora que bem entendessem. O corredor parecia um mercado de peixe. Gritavam entre as pontas do corredor, gargalhadas, lixeiras sendo arrastadas, pedidos de medicamento feitos a distância. Isso sem contar que, de forma inacreditável, a enfermagem mantém uma dispensa com insumos hospitalares dentro do quarto, rompendo noite a dentro acendendo todas as luzes para uso do armário e ignorando a presença de idosos doentes naquele recinto que agonizavam tentando dormir, além de todo mal estar, dor, ausência de um acompanhante por parte da maioria, portanto sós e com receio de reclamarem e piorar ainda mais a situação.

Cientes de que o sono é fator fundamental para recuperação e manutenção da saúde de qualquer ser vivo, que lugar é esse que chamam de hospital, mas na madrugada se assemelha ao inferno? Pelo menos foi esse o retrato imaginado por mim de como poderia ser a casa do anti-cristo.

Meu coração já saía pela boca e antes que explodisse procurei me informar com o enfermeiro Mário que cobria o setor naquele dia e estava no quarto naquele momento. Perguntei: Existe alguma necessidade em manter a porta aberta durante a madrugada? Nenhuma, respondeu prontamente. Segunda pergunta: qual a estimativa de horário para ministrar o ultimo medicamento nos pacientes do fatídico quarto 604? Examinou a prancheta e disse: 23 Horas. Terceira pergunta: Após este horário posso fechar a porta e apagar a luz para que os doentes possam ter uma noite de sono mais tranquila já que o barulho externo era intenso? Resposta: Sim, claro.

Além do barraco feito pela equipe de enfermagem, haviam gritos e gemidos naturais de dor que ecoavam pelas portas escancaradas de um quarto ao lado. Um cenário que mais se parecia com um ambiente de tortura.

Antes da saída de Mário questionei, mas desta vez em tom indignado porque não sou de ferro e meu saco não é de aço inox: Me explique o porque vocês acendem toda essa constelação de luzes durante a madrugada para verificar um único paciente se existe uma luminária acima de cada leito instalada para realização de atendimento individual? Porque acordar todos os outros se existem possibilidades para não fazer isso? Será que ninguém percebe que a porta escancarada e presa por uma lixeira bloqueia a entrada do banheiro dificultando o acesso dos idosos enfermos na madrugada que ainda são obrigados a fazer esforço físico para remover a lixeira e ao fazerem isso acordam os demais. Faxina na madrugada? Fecham a lixeira de forma bruta assustando os doentes que tentam retomar o sono? Que descanso é esse? Depois de um dia intenso de medicações e manipulações com banho, trocas de fraldas, limpezas, você não concorda que deveriam adotar um procedimento que zelasse pelo bem estar DELES e não facilitar o trabalho de vocês?

Minha forma didática e educada de falar (pelo menos penso ser assim rs) não escondia meu olhar de serial killer. Mário cabisbaixo, concordou com a cabeça.

Finalizei: sei que vocês estão sobrecarregados e muitas vezes isso tudo é imperceptível neste ritmo, mas gostaria que levasse isso adiante como sugestão para melhoria no atendimento de vocês, que não é bom. Te agradeço.

Mario saiu. Este papo aconteceu por volta das 6 Horas da manhã e foi um desabafo de minha parte após uma noite torturante.

Neste momento chega a equipe para a troca das fraldas das senhoras e pedem para que eu fique do lado de fora enquanto efetuam a assepsia.

Enquanto isso, caminhando pelo corredor em direção a área de enfermagem me deparo com o enfermeiro Mário saindo de uma sala sorrindo de forma irônica e ouço uma voz feminina dizer: Ele pensa que está onde? No Einstein?

O ELE era EU!

Calmamente cruzei a frente do Mário e antes que a porta se fechasse entrei na sala e surpreendi a grilo falante:

“Você pode não ter em mãos a estrutura física e tecnológica oferecida no Einstein, mas um serviço mais humanizado pensado no bem estar dos pacientes que chegam aqui precisando de conforto físico e emocional, isso é possível. Basta coração, bom senso e boa vontade. Um Einstein pode ofertar um certo luxo, mas não é porque estamos no SUS que o serviço tem que ofertar um certo lixo.”

Os olhares de alguns colaboradores que degustavam seu café da manhã estalaram com minha inesperada aparição. A Mocinha bocuda em questão, estatura baixa, cabelos negros encaracolados, usando óculos e uniforme azul de enfermagem extra G, sem crachá (cujo nome ainda não consegui, mas pelo biotipo e data do plantão, 6 Horas do domingo do dia 8 de maio, DIA DAS MÃES, será facilmente identificada), de forma arrogante alegou que as portas ficam abertas para ouvirem o chamado dos pacientes e que no quarto 604 as pacientes não andam até o banheiro! Antes que ela terminasse sua desculpa esfarrapadíssima, disparei sob os olhos arregalados da simpática Vanessa, responsável pela limpeza do andar: “Das 5 pacientes, 3 levantam à noite e caminham até o banheiro e se precisarem de auxílio, pelo quadro clínico, não possuem força vocal para pedir ajuda aos gritos. Estou lá e posso ajuda-las . Cada quarto é um quarto. Diferentes necessidades, mas para distingui-las é preciso coração”.

Ao encerrar meu discurso o silêncio tomou conta do andar. Atitude que deveria ter sido tomada durante todos os períodos. Talvez não reconheçam essa necessidade porque não existem aquelas antigas gravuras onde víamos a imagem de uma enfermeira com o  dedo indicador entre os lábios indicando o pedido de silêncio.

Precisamos investir em educação, mas principalmente em educação comportamental, pois vivemos em um país onde é necessário colocar placas nos banheiros implorando para o usuário dar descarga após o uso e não urinar fora do vaso! Assim sendo, acho que chegou a hora de resgatarmos a saudosa, porém oportuna imagem da enfermeira pedindo silêncio. Um símbolo do comportamento.

Estamos em um ano eleitoral e geralmente repleto de médicos se candidatando a deputado federal e prometendo cuidar melhor da saúde; Minha sugestão: Iniciem pela triagem, mas não dos pacientes, mas do corpo clínico. Tecnicidade você aprende, mas caráter, sensibilidade e amor ao próximo, não.

Boleiros do Terrão

A paixão da minha geração era a bola.

Pré-Mirim, Mirim, Infantil, Infanto, Juvenil, Principal, essas eram as divisões das bases que escalei ao longo dos anos na Várzea e um pouco na base de clubes grandes. Meu futebol era honesto. Um arroz com feijão bem jogado, mas nada que pudesse me levar ao profissional. Meu negócio era o terrão!

Era início dos anos 70. Debaixo de sol ou tempestade, às sete horas das manhãs de domingo, estava eu portando uma sacolinha de pano recheada por um par de chuteiras, duas faixas e um par de caneleiras, acessório recém lançado na época, aguardando abrir o portão de ferro pintado de branco com o distintivo do 7 de Setembro da Água Rasa, primeiro clube que tive orgulho de vestir a camisa com furinhos, mas não para ventilar, mas comida pelas traças.

Com pinta de boleiros, já no vestiário, sentados em bancos de madeira, semi podres disfarçados com tinta verde escura, esticávamos a faixa presa entre os dedos do pé pra fazer o rolinho que desenrolaria pressionado para proteger os tornozelos das botinadas adversárias. Os uniformes eram farrapos descartados pelo time principal adulto, e evidentemente imensos para nós crianças. Os meiões sem elástico eram presos por um barbante ou cadarço amarrado logo abaixo do joelho. Os calções pareciam saias, mas o que nos importava era a alegria em receber arremessada pelo treinador a camisa – lembrando, esburacada pelas traças – de titular com numeração limitada entre 1 e 11 determinando nossa posição.

A bola era única. Nada de peso e tamanho determinado por idade. Era uma bola de capotão (couro) que ensebávamos com um pedaço de carne engordurada – presenteada pelo açougue – para conservar ela lisa. Porém nos dias de chuva, o campo de terra transformava o futebol em rally e a bola virava um meteoro com placas de barro que a deixavam com o dobro do peso. Isso nos deixou com chutes poderosos comparado com o dos burguesinhos que jogavam com bolinha dente de leite nos campos de grama, mas também arrancava pedaços da nossa testa quando cabeceávamos. Difícil era convencer nossos pais que não houve briga e sim que o estrago foi feito pela bola.

Por falar em briga, nem sempre, mas em algumas MUITAS ocasiões, este campão de terra se transformava em praça de guerra. Bastava uma, somente uma jogadinha violenta pra gente se auto afirmar na porrada. O segredo era bater rodando e apanhar rodando também, as vezes tiro amigo, porque no agito da confusão não dava tempo de identificar o adversário, batia no primeiro que aparecia pela frente, principalmente se você já estiver com o olho roxo.

Ganhando ou perdendo, após o jogo a molecada se encontrava no boteco que ficava do lado de fora do alambrado pra receber nosso Bicho felizes da vida: um guaraná e um cachorro quente.

Essa era o retrato do nosso domingo feliz! rs

Os chinelos teleguiados da minha mãe

Nasci em São Paulo no bairro da Água Rasa localizado entre o Tatuapé do Corinthians e a Moóca do Juventus, mas como raríssimas pessoas sabiam sua localização, eu e meus amigos, pra não ficar explicando demais, ou pior, dizer que era no início da avenida Sapopemba (nome feio da pemba), que afastava a freguesia, então dizíamos que morávamos no Alto da Moóca, pronto.

Ainda molequinho, me lembro do tico-tico e da lambretinha a pedal, da toalha nas costas que faziam a mim e ao meu irmão acreditar sermos super-heróis e caminhávamos sobre o muro como gatos até sermos resgatados pela orelha por nossa delicada mãezinha. Eu e meu irmão devíamos gostar do Zorro (olha a memória falhando) pois ganhamos de presente de nossos pais um kit com Chapéu, máscara e espada. As espadas eram de borracha flexível estilo cassetete e não tardou sua utilidade para deixarmos as marcas do ZORRO nos vizinhos metidos a besta que moravam em frente nossa casa, deixando alguns vergões na lembrança daqueles três irmãos que, até aquele dia, nos enchiam os pacová.

Porém a sova que levamos na sequencia de nossa santa mãe foi pior.

Por falar em sova, minha mãe possuía chinelos, tamancos ou qualquer coisa que estivesse calçando com a capacidade teleguiada por sua fúria que permitia a seus calçados fazerem curvas e nos atingir com a precisão de um franco atirador. Tenho isso gravado na memória e por anos em galos que saltavam da minha testa.

Me lembro também da primeira bicicleta, uma bandeirantes, pneu maciço e sem freio que destruí junto com algumas partes do meu corpinho cabeçudo no portão de aço da garagem de um vizinho que ficava na curva da ladeira ao lado da nossa casa.

Minha cabeça era algo notável, não pela inteligência, mas pela sua leve dimensão. Ao tentar chamar a atenção do meu pai, entrava na frente da TV, abria os braços e dizia:

  • Agora ninguém vê mais!

E de bate pronto o sacana do meu pai respondia para deleite de meu irmão:

  • Nem precisa abrir os bracinhos !

Assim como fez com meu irmão, minha mãe me acompanhou até a porta do colégio de freiras “Nossa Senhora de Lourdes” e durante o trajeto dizia para que eu memorizasse o caminho caso precisasse ir sozinho. Íamos sós. Eu e meu irmão. Seis e sete anos de idade respectivamente caminhávamos algumas boas quadras. Outros tempos.

Primeiro dia de aula, lembro do chorinho na entrada do colégio me sentindo abandonado pela minha mãe e pelo meu irmão que já corria na direção dos amiguinhos de classe, mas no dia seguinte, estava eu também correndo pra galera.

Minha primeira professora se chamava irmã Leocádia – com este nome tinha que ser freira, que Deus me perdoe – não sei o que ela aprendeu em seu ensino religioso, mas ela transformava a sala de aula em um calvário. Caminhava como uma general entre as carteiras empunhando uma régua de madeira de 40 centímetros pronta para ser usada contra o primeiro engraçadinho.

Usávamos uma mala acartonada para levar o material escolar e um dia retornando pra casa debaixo de chuva, advinha, vi partir em retirada pela enxurrada, caderno, livro e estojo pelo fundo da malinha rasgado pela umidade.

Tomamos outro pau. Em casa era sim. Na dúvida de quem foi o responsável pela merda, apanhava os dois. Era phuds!

Nossos pais trabalhavam e à tarde ficávamos sós, eu e meu irmão, 11 meses mais velho, com a única tarefa de fazer o dever de casa.

Um dia, após finalizar nossos afazeres escolares, enquanto eu brincava com bolinhas de gude no chão, meu irmão arremessava pequenas bolinhas de “papel amassado” na direção do lustre em forma de globo que ficava na sala. Ingenuamente, acho eu, pensei que o som do impacto de uma bolinha de gude seria maior que o das bolinhas de papel. Competição entre irmãos. Bastou um único tiro certeiro para moer o globo.

Lembro de minha mãe adentrar a casa poucos minutos depois deste extraordinário e imbecil feito dizendo:

  • Cadê meus anjinhos!

E menos de um segundo depois, ao ver os cacos de vidro no chão…

  • Puta Que Pareoooooooooooooooooooooo !

Conhecendo a fera, já aguardávamos nossa algoz dentro do banheiro com a porta fechada a chave. Eu e meu irmão havíamos combinado de só abrir a porta quando a leoa se acalmasse, porém o traíra abriu a porta e saiu gritando:

  • Foi o Mi! Foi o Mi*!

(*Mi era meu apelido de infância porque este infeliz não conseguia – evidentemente pronunciar o meu nome, tipicamente brasileiro, Wladimir.)

Recordando que a lei da casa era “na dúvida apanha os dois”, a porta mal se abriu e ele já tomou o primeiro Box e saiu dançando bolero pelo corredor. Eu estava encolhido feito um tatu bola protegendo a cabecinha avantajada ao lado do vaso sanitário, mas ao levantar o olhar vi um cinto entrar antes de minha mãe no recinto – cinto no recinto, sinto muito – que se transformaria em um octógono de MMA onde eu seria nocauteado no primeiro round e como prêmio de consolação ganharia o apelido de zebra pelos coleguinhas demoníacos, discípulos da irmã Leocádia, parente de Lúcifer.

Lembro de brincar muito no recreio (nome dado ao intervalo no colégio) ao ponto de esquecer de ir ao banheiro. Entrava na sala de aula e pedia para Santa Irmã Leocádia:

  • Posso ir no banheiro?

Com olhar de lobo a freirinha de 1,5 metro de pura cortesia respondia:

  • O recreio serve para isso também. Agora, se estiver apertado, faz nas calças.

Não levei a ordem ao pé da letra, porém o perigo real e imediato me fez sacar o “junior” e descarregar a urina direcionando o jato para frente. O desespero era tamanho que não me atentei a Nizinho, a coleguinha sentada na carteira à minha frente com a infeliz mania de manter seus pezinhos e perninhas com meias brancas ¾ do uniforme  recolhidos para trás, ou seja, praticamente em baixo da minha carteira.

Naquela época a escola era uma extensão de casa
Mil e uma utilidades

Não preciso contar o resto. Vou deixar para sua imaginação, mas o resultado foi, após o grito da “miguinha, conhecer de perto, bem de perto, pertíssimo, a régua de madeira Leocadiana e o caminho percorrido com minha orelha suspensa até a diretoria.

Mais um cacete maternal.

Lembro também de meu irmão ficar com uma pusta febre porque minha mãe não comprou um aviãozinho de plástico verde com as asas vermelhas ( e ele não torcia para a Portuguesa de Desportos, era corintiano e virou palmeirense, vai entender) que ele viu em uma vitrine a caminho da escola. A febre só cedeu quando nossa tia Zélia apareceu com o danado lá em casa e deu de presente pra ele.

Tivemos Forte Apache, Autorama Interlagos… meu irmão rasgou o saco em um prego espetado em um cabo de vassoura que ele acreditava ser o cavalo do zorro…pensando bem este zorro só trouxe desgraça pra nossa infância!

Futebol de rua

Futebol de campo, de salão, na escola, mas onde o pau comia mesmo era na rua.

As traves eram chinelos ou pedaços de pedras afastados a três passos. Lateral só se a bola caísse no terreno vazio. Portão, muro e meio fio (guia) da calçada eram usados para fazer tabelinha. Diferente do futebol britânico, onde os jogadores possuem nomes que mais lembram dinastias, o jogador brasileiro tinha apelidos: Didi, Vavá, Pelé, então seguindo as regras do nosso país, eis os nomes dos atletas do asfalto: Mi, Wande, Cacalo, Cato, Cabeção, Pesão, Caçapa, Zoinho, Tacílio, Negrão, Neizinho, Tildo, Tarso, Ninho, Giba, Guba, Kiko e Pistolinha.

O time era escolhido de forma equilibrada entre melhores e mais ou menos, ou menos menos. Tinha gente que chutava a favor do vento. Este era o critério pra deixar a pelada competitiva e muito divertida, pelo menos até a bola cair no quintal da casa da Cigana (apelido dado devido ao figurino e aos brincos de argola com capacidade para pendurar uma tolha de banho), vizinha que mantinha o Dodge Dart do marido na rua para não estragar seu jardim de rosas. Foram algumas bolas rasgadas que deram início a uma pequena guerra com a molecada.

Um moleque sozinho já é perigoso, um monte já é formação de quadrilha. Arquitetamos um plano que foi aprovado por unanimidade: Todos faríamos xixi em um galão de 18 litros (latão de tinta vazia) posicionado do outro lado do muro de um terreno vazio em nossa rua que pertencia ao posto de gasolina localizado na avenida paralela.  Então, deu vontade de mijar, pula o muro e enche o latão. Nossa rua era uma vila com casinhas geminadas e garagem para um carro. A casa do Toninho Caçapa era colada na casa da Cigana (Dona Ruth) e possuía um murinho que cobria o registro de água e serviria como nossa plataforma de lançamento de xixi sobre as lindas roseiras da megera. Nossa rua se chamava São José, mas o nome da santidade não impediria nossa vingança. Na calada da noite despejamos o conteúdo cujo perfume seria suficiente para dizimar o Jardim do Eden. A molecada era a base de kisuco, portanto nem a grama sobreviveu. Não sobrou nada além dos gritos da bruxa na fatídica manhã em que acordamos todos a gargalhadas.

O campo de batalha foi formado. Mesmo a pedido do Neco, seu marido que lhe dizia para não arrumar confusão com moleque, ela permaneceu no “front” com sua faca de pão afiada destruindo nossas bolas.

Pensamos no Plano B: Se xixi não foi suficiente para acalmar a ira da esquisita, merda nela. No final da Vila, havia um estacionamento que servia para descarregar os produtos de um restaurante localizado na rua de cima e com um banheiro para funcionários cuja relação com a higiene não era das melhores.

Porém isso favorecia nosso plano: recolher merda para rechear a maçaneta do fusca 73 (que era oca) da bruxa ciganhenta.

Durante a semana nossa arqui inimiga levava seu filho esquisito na escola, aliás essa era a principal característica daquele núcleo familiar capaz de deixar a Família Adams confusa. Com nossa ação devidamente planejada, minutos antes do início da rotina, enxertamos um “toronço” campeão (nome dado àqueles troncos de merda que mereciam nome e cerimônia de batismo) no interior da maçaneta do fusca usando um palito de picolé e sentamos na calçada do outro lado da rua que serviria de camarote para assistir àquele que se pronunciava ser o maior espetáculo a céu aberto da Água Rasa!

A vamp abre o portão e caminha na direção do fusca bomba. Tentem imaginar a cena: Ela em câmera lenta. Seu vestido longo coloridão tremula ao vento. As imensas argolas dos brincões e pulseiras tilintam enquanto ela nos fuzila com seu olhar de sombra azul e cílios postiços ameaçador. O molho de chaves é sacado da bolsa tão colorida quanto o vestido e sua maquiagem. A chave gira a tranca e sua mão esquerda parte na direção da esmerdalhada maçaneta. Nossas sobrancelhas se levantam com a mesma intensidade da tensão e da taquicardia que toma conta dos esqueletos bandidos que se remexem sobre a calçada. Neco observa a cena e enquanto fuma seu cigarro, que entre uma baforada e outra, cria uma cortina de fumaça capaz de esconder os tênis pendurados na fiação da rua. Nossa ansiedade nos fazia imaginar o som da merda penetrando os vãos entre os dedos de unhas imensas e claro, coloridonas como o vestido, a maquiagem e a bolsa. Ao pressionar a maçaneta nosso sonho se realiza. A bruxa não acredita que aquilo possa estar acontecendo. Olha para a mão esquerda e inicia o movimento de levar ao nariz, mas não foi necessário. O aroma fedorento chicoteou sua cara que agora expressava uma mistura de nojo e ódio. Seu olhar era de uma serial killer. No camarote, também em câmera lenta, segurávamos o prazer da vingança nos olhos lacrimejados de felicidade pela execução vitoriosa do nosso plano que culminaria em uma imensa gargalhada ao ouvir a frase indignada da Cigana da São José:

  • Neco! É merda Necooooooo!

Neco engasgado na fumaça dispara com um certo ar de satisfação compartilhada:

  • Eu avisei você pra não arrumar confusão com moleque, não avisei?

Explodíamos em êxtase enquanto Neco escondia seu sorriso maroto de apoio velado à nossa missão e disparávamos ladeira abaixo para não sermos executados em plena luz do dia sem direito a julgamento.

Resultado: Nossas bolas não seriam mais rasgadas e nossas necessidades fisiológicas não precisariam mais serem compartilhadas. A paz reinava no front que agora mudava o nome de Rua São José para Rua Baía das Garças, ou seria Baía das Desgraças? Não me lembro.

A CHATICE DO FUTEBOL PROFISSIONAL BRASILEIRO

Há muito tempo atrás éramos reconhecidos como o Brasil dos jogadores de futebol mais habilidosos do mundo! No gramado tínhamos verdadeiros lordes que não sabiam a cor da grama porque jogavam de cabeça erguida! A habilidade era tamanha que os adversários caçavam nossos craques, mas não os encontravam. Mesmo sobre pontapés, caíam e rapidamente se levantavam ignorando as agressões em nome do futebol arte e só paravam quando a bola estufasse as redes do adversário !

Era a beleza do futebol traduzida em gritos de gol em uma arquibancada que extravasava suas paixões!

Essa paixão chamou a atenção do marketing das grandes marcas e assim nossos craques foram exportados e a nossa magia se fora com eles. O dinheiro entrava em campo e a molecada que no passado sonhava em ser ídolo entre os torcedores, hoje, salvo raras exceções que trabalham para tirar a família do buraco, uma grande maioria sonha com a fama e a conta bancária milionária e seus bens expostos nas redes sociais. Funk da bola ostentação.

“Não quero ser craque, quero ser famosão! “

O estádio agora se chama arena com direito a “name right” pra quem pagar mais e o olhar do “atleta” que deveria estar concentrado na bola e na sequencia da jogada para se transformar em gol vibrado em alto e bom tom na garganta e reverberado no coração do torcedor foi substituído pelo contracheque e pela busca do estrelato e da popularidade fora dos campos de futebol.

Mas e o fã? O apaixonado pelo futebol que com muito sacrifício compra o ingresso pra prestigiar o time e em contrapartida só quer sorrir ao ver seu clube do coração ganhar? Como é que ele fica?

“Ah! Esse que se dane!”

O que está enterrando de vez a bolinha que estamos vendo rolar com dificuldade sobre o tapete verde, alguns artificiais pra combinar com o nosso futebol, é que agora alguns jogadores querem transformar este esporte em novela mexicana! Com algumas maldosas exceções, o contato físico natural deste esporte agora tenta ser transformado em agressão, onde uma mão no peito em uma disputa de bola faz com que o jogador se jogue no chão estrebuchando com as mãos levadas ao rosto como se tivesse levado um tiro na cara.

Simulação feita por atores ruins que usam deste artifício para esconder a mediocridade de um futebol decadente revelado em câmera lenta por poderosas câmeras que expõem a vergonha sentida por nós nessa representação triste do que restou do nosso saudoso futebol arte. Se jogam na área adversária como se tivessem sido atingidos por uma granada! E ainda levantam enfurecidos pedindo cartão amarelo ou vermelho para o zagueiro que acompanhou a cena com piedade cristã.

Parafraseando o grande e divertido locutor Milton Leite: “Que beleza! Agora eu se consagro!”

Sou fã de futebol e por essa razão acompanho sempre que posso a Premiere League e os grandes jogos da UEFA Champions League para verem brilhar astros como Messi, Cristiano Ronaldo, Pogba, Kanté, Salah, Mané, entre outros verdadeiros profissionais que valorizam mais o espetáculo da bola e respeitam o torcedor apaixonado por futebol. Enquanto aqueles que sonham em serem os melhores do mundo, esquecendo que são jogadores de futebol e não super astros de cinema, compartilho uma dica com uma modesta opinião caso ainda sonhem conquistar a chuteira de ouro: Humildade e foco na bola e não nas câmeras de Tv e de paparazzis de plantão.  Protagonize dentro das 4 linhas e não fora delas. Jogue futebol e deixe sua vaidade para seu próprio espelho. Seja notícia pela obra de arte que pinta em campo e não na arte que apronta fora dele. Seja famoso pelo seu trabalho e não pelas postagens que faz nas redes sociais ao lado de outros famosinhos ! Seja honesto em campo como um homem deve ser dentro e fora dele. Quem gosta de bola quer ver show de bola. Show de presepadas aos fãs de futebol é agressão e não nos interessa…falo por mim, claro.

Bola pra frente! Se for possível.

CORDEL DA VIDA

As vezes me pergunto: o que é que tô fazendo aqui?

Vivendo num mundo que basta um segundo pra você sumir

Com gente agressiva que fala de morte, vive dando peti

ao invés de simplesmente sorrir

Não questiono crença ou qualquer diferença

Somos todos seres humanos, gente que pensa

Que sonha acordado e também quem nem consegue sonhar

Que vê apenas problema por qualquer caminho que passar

Mas também vejo muita gente boa

Que jamais se magoa

Porque ao invés de tentar entender

Tem coração maior que irá compreender

Essa gente quero sempre ao meu lado

Que não enxerga o pecado

Um erro que pode ser perdoado

Porque tudo aqui é aprendizado

Tem gente que vive com pressa

Que trabalha a beça

E não encontra tempo pra ver

Um bonito amanhecer e a lua que faz um buraco no escuro ao anoitecer

A vida é um escola

Que não pede esmola porque tem muito pra dar

Com amor a tudo aquilo que o dinheiro não pode pagar

Pequenas grandes coisas que se distanciam do ter,

mas te aproximam do ser.

A ARTE DE PEIDAR

A flatulência é algo que certamente gera desconforto  quando não se é proprietário do feito, mas um pusta conforto àquele a quem de fato pertence, ou seja peidar faz bem!

O Ato em si gera controvérsias na cultura mundial. Tenho um primo que é médico há algumas décadas e logo após sua formatura, viajou para a Alemanha para fazer uma especialização em medicina esportiva. No intervalo de uma aula, caminhando pelas ruas de Munique com um colega Alemão, sentiu que o cara havia exagerado no Chucrute, e típico de um brasileiro disparou uma piada a queima roupa, ou a queima cueca:

  • Acho que vai precisar fazer uma cirurgia de reconstrução do reto! (risos)

Porém, ao invés de uma boa risada entre colegas de curso, recebeu uma dura:

  • Você como médico sabe muito bem o quanto faz mal reter gases e me admira este tipo de comentário vindo de você! Acho que no Brasil as pessoas não soltam gases.

Entre o choque de culturas, meu primo Dotô rebateu:

  • Soltamos gases sim, mas não em público. No Brasil é falta de respeito. Além do mais você está sendo delicado porque o que você fez foi picar seu rabo e jogar na minha cara! (gargalhou e largou Dr. Chucrute no meio da rua acompanhado agora somente por sua saudável nuvem tóxica).

É claro que sabemos que apesar de ser considerado uma falta de respeito peidar próximo as pessoas, como este tipo de gás não é visível, só “sensível”, a maioria das pessoas fazem exatamente o que Dr. Chucrute fez: Liberam o argônio e que  se dane o nariz alheio.

Certa vez, estava eu e dois amigos atores no hall de um prédio de um edifício comercial aguardando o elevador (aqueles com capacidade para 22 pessoas) quando se aproximou uma mulher com um bebê no colo. Um destes meu amigos liberou uma daquelas bufas silenciosas – que se tivesse nome, pelo som foneticamente falando poderia se chamar “Rodolfoooooooo” – capazes de destruir o olfato de qualquer ser vivo – no exato momento em que a porta do elevador se abria e, todos entramos. Claro que o acompanhante invisível veio junto e absorveu toda oxigenação antes que a porta do elevador se fechasse. Foram os 20 segundos mais longos da minha vida. A expressão  no rosto das pessoas que ali estavam era de desespero. Como no teatro, entramos em cena e ficamos de frente para a plateia e de costas para mãe e seu rebento que dormia entre seios. Eu, cúmplice daquela tentativa de atentado terrorista, não sabia se gargalhava ou se chorava, mas não consegui segurar a “lagriminha ” que escorria por um dos meus olhos. Quando finalizava minha oração mental para que o elevador chegasse ao térreo e nos libertasse daquela situação constrangedora, o autor do feito e proprietário da massa gasosa anti-ambiental, colocou sua técnica dramática em ação e, com a maior cara de pau da galáxia, olhou para as pessoas e sussurrou:

  • Será que esta senhora não percebeu que o filho dela está todo cagado?

Naquele momento desviei minha mente para os templos budistas na tentativa de sacar meu espírito daquele elevador que não chegava nunca, mas no físico eu já estava em prantos nadando em lágrimas que atraíram todos os olhares ali presentes com a cara de quem, se tivessem legendas, estaria escrito: FOI ELE.

Este tipo de comportamento é mais típico das pessoas do sexo masculino que acham divertidíssimo destruir o círculo formado para uma conversa entre amigos ou protagonizar uma saída triunfal de um vagão de metrô e ainda descaradamente parar do lado de fora sobre a linha de segurança amarela para se deleitar observando a expressão de destruição em massa daqueles que ficaram com os sinais de sua digestão.

É claro que as mulheres também peidam e as vezes tão ou mais fedido que uma hiena digerindo a carniça do seu desjejum, mas geralmente elas “costumam” ser reservadas e sem o espírito de porco da maioria dos homens, que me perdoem os suínos. Gostam, como elas definem, soltar seus “punzinhos” sentadas no vaso sanitário, por exemplo. Mas o que elas desconhecem é que este receptório de excrementos humanos, pelo seu design, funciona como um reverberador capaz de potencializar o ruído e transforma-lo na nota “Dó” de uma tuba ao ponto de convocar com urgência a defesa civil. Portanto meninas, a partir de agora levem uma manta de som ao banheiro.

Baseado neste tipo de comportamento, talvez os alemães estejam certos: Assumam seus gases e sejam felizes sem cólicas.

O TIK TOK E O NOVO RETRATO DO INFERNO

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Reconheço que as gerações mudam e as nossas vidas passam por uma turbulenta revolução tecnológica que nos permite acessar um universo de conhecimento com apenas um dispositivo em mãos e, com eles surgiram uma enxurrada de startups ofertando plataformas de serviços que facilitam nossa vidas, o que é maravilhoso! Porém, alguém sabe me dizer para que serve este tal TIK TOK além de extrair o lado ridículo do ser humano? Dancinhas, coreografias, dublagem de musicas ou diálogos conhecidos de filmes para expor as pessoas ao topo da irrelevância e de quebra capturar dados?

Bom, ciente de não pertencer ao público alvo e colocando aparte o meu lado ranzinza, todos possuímos o poder da escolha para fazer o que quisermos e assumir vergonhas futuras que certamente virão, mas quando surge algo que invade sua vida com uma publicidade de tortura invasiva que sem pedir permissão se camufla para se instalar em seu celular, é demais!

No último domingo, logo após me deitar e preparar a carcaça para mais uma semana de batalha, autorizei uma atualização do sistema androide do meu celular e peguei no sono. Pela manhã, após acordar meu celular para ler as notícias durante o café fui surpreendido ao ver dois aplicativos instalados sem minha solicitação: Sansung itaú card e advinhem, TIK TOK !

Como se já não bastasse ver este aplicativo me perseguindo a cada segundo por onde direciono meus interesses no digital, estes bandidos agora invadem meu celular sem autorização??  Na era digital viramos números, algoritmos perseguidos para nos transformar em dados que serão negociados a valores estratosféricos.

Enquanto as pessoas se submetem a se expor ao ridículo em troca de curtidas vazias que flutuam no universo do absurdo Tik Tokiano para fazer Freud se remoer no túmulo, a busca incessante pela fama e enriquecimento repentino no digital parece uma doença pré existente desta nova geração, talvez algo que apareça em breve no preenchimento dos cadastros das operadoras de plano de saúde: Você sonha em ser influenciador? Em caso positivo custos adicionais de terapia serão implementados.

A palavra influenciador rola na boca dos adolescentes feito charuto na boca de bêbado e pelo visto, salvo raras excessões, a maioria não sabe o significado da palavra.

“São uns caras legais que fazem umas paradas da hora!”

Baseado nisso, imaginei abaixo uma conversinha de alto nível de desentendimento entre a ficção e a realidade.

Provável diálogo de um ser humano inconformado como eu com o adolescente prodígio residente em vênus:

O que você quer ser quando crescer?

R: Famoso!

Mas vai estudar para qual profissão?

R: Isso não importa. Preciso descobrir uma forma de ser famoso, ter milhões de seguidores nas redes sociais e ficar milionário!

Como não importa? Se você quer ser famoso precisa ter talento pra alguma coisa, precisa buscar conhecimento e estudar muito pra ter credibilidade pra falar sobre determinado assunto com propriedade e assim conquistar um público relevante! Não é isso?

R: O que você acha de eu gravar uns vídeos dançando e fazendo umas coreografias no tik tok?

Acho que devia se internar.

R: Já sei! Vou seguir carreira musical!

Vai fazer universidade de música! Legal!

R: Vou virar funkeiro!

Se quiser anotar uns palavrões pra começar a compor estou com alguns na ponta da língua. Vou comprar um pinico pra te inspirar.

O TIK TOK E O NOVO RETRATO DO INFERNO

SER PERFECCIONISTA É BEM DIFERENTE DE SER PERFEITO

Gosto de gente! Principalmente de gente educada e gentil. Que respeita e valoriza o outro. E foi com este perfil de ser humano que escolhi viver, conviver e ter ao meu lado, mas as vezes a vida nos prega algumas peças para fortalecer nosso propósito…pelo menos tento acreditar nisso!

Profissionalmente me considero um contador de histórias, mas gosto de criar uma narrativa baseada em pessoas cuja presença faz bem a quem está ao seu lado, ensina e acrescenta algo de positivo que nos motiva a seguir em frente nesta vida que muitas vezes se assemelha a uma montanha russa.

Tenho como princípio trabalhar em cima das virtudes das pessoas, porque é fato que, se os defeitos se sobressaem, o resultado é o fim de um relacionamento, seja ele pessoal ou profissional.

A palavra é contemporizar.

Seria utópico da minha parte achar que vivemos no País das Maravilhas, mas que seria legal, seria. Um planeta cujos habitantes nascessem abastecidos com bom senso suficiente para admirar as diferenças, valorizar mais as virtudes do que os defeitos e assim aprendermos uns com os outros e evoluir. Creio ser este o único objetivo de termos desembarcados neste planetão chamado terra.

Bom, depois de adquirir um pouco de conhecimento pessoal observando o comportamento dos diferentes e difíceis seres humanos, onde construo minhas ações profissionais, devo confessar que tenho muita dificuldade em lidar com àqueles que se auto intitulam “perfeccionistas”.

Digo isso porque àquele que se considera perfeccionista é incapaz de distinguir seus achismos que flutuam entre a realidade que envolve o relacionamento com outras pessoas e seus diferentes tipos de conhecimento.

O autointitulado “perfeccionista” alimenta um ego que o impossibilita enxergar as qualidades das pessoas que o cercam e cujas contribuições enriquecem, aquecem e geram uma energia do bem, pois envolve reconhecimento que dá valor a nossa existência, principalmente neste momento difícil que o mundo está vivendo com tantas incertezas.

Ainda está para nascer alguém genial o suficiente para adquirir tamanha habilidade para dominar todos os assuntos que permeiam nossas vidas e é por isso que existe a necessidade de relacionamentos que, somadas as expertises individuais resultam em algo satisfatório e geralmente fantástico porque nos permite enxergar a participação de cada envolvido no processo.

O tal perfeccionista se alimenta do ego que tira o óleo das engrenagens que fazem a máquina da vida gerar mais rápido e fluída: a felicidade!

A impossibilidade de ver valor em seus apoiadores, colaboradores ou familiares, será responsável pela insatisfação que certamente resultará em conflitos que influenciarão no péssimo andamento das ações sonhadas pelo “perfeccionista” que se irritará com a não realização de suas propostas ou sonhos pelo simples fato de não reconhecer que, principalmente ELE, não é e nunca será perfeito.

Faz parte também do perfil  “perfeccionista” jogar a culpa do péssimo resultado nas costas daqueles que ele jamais deu ouvidos.

O maior defeito do perfeccionista é não ouvir, não ver e não sentir que existem mentes, vidas, corações vibrantes extremamente melhores que ele e que foram colocados em seu caminho exatamente para acrescentar algo que ele não possui.

Costumam interromper um diálogo para transforma-lo em um monólogo. Menospreza a opinião alheia por considerar que a sua é mais importante. São inseguros, não confiam em ninguém, nem neles mesmos.

Não preciso dizer que este texto é um desabafo pela insatisfação de ter trabalhado com um auto intitulado “perfeccionista” que adora palpitar em cima do que não fora criado ou pensado por ele. Chamo de Engenheiro de Obra Pronta aqueles que se apropriam da ideia do outro e as exibe com a propriedade de um gênio incapaz de sentir o tamanho da sua mediocridade.

Citando a definição encontrada em meusucesso.com no artigo: ser perfeccionista é uma qualidade ou um defeito? … No fundo, segundo estudiosos, um comportamento perfeccionista geralmente está ligado a uma baixa autoestima e à falta de confiança. Tentar atingir o nível da perfeição aflige inúmeras pessoas, principalmente quando a administração de negócios está em jogo.

SER PERFECCIONISTA É BEM DIFERENTE DE SER PERFEITO